
terça-feira, 26 de agosto de 2008
O Homem do Tempo

quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Tropa de Elite

Título Original: Tropa de Elite
Realização: José Padilha
Ano: 2007
Urso de Ouro no Festival de Berlim e sucesso garantido mesmo antes de estrear, Tropa de Elite chega-nos do Brasil com o rótulo de filme-sensação, na senda do fantástico "Cidade de Deus". E para aumentar a curiosidade, nem falta a polémica: alguns espectadores aplaudem fervorosamente, outros, chocados, consideram uma incitação à violência mais primária e saem a meio. Não se pode agradar a gregos e a troianos, e José Padilha nem parece ter-se preocupado muito com isso. Pelos lados de cá o tema ainda é visto como algo que não nos afecta, do qual guardamos certo distanciamento. Por essa razão, conseguimos com mais facilidade analisar o filme pelo filme, friamente e deixando de lado as nossas emoções e opiniões pessoais. Mas vamos pelo princípio.
Tropa de Elite passa-se nas favelas do Rio de Janeiro, as mesmas favelas (ou então muito parecidas) de "Cidade de Deus". Mas tem uma grande diferença: o foco da atenção não é dado às pessoas e traficantes que lá vivem, mas à polícia que tem a quase impossível missão de pôr ordem no assunto. E não se trata de uma polícia qualquer, mas de uma "tropa de elite" que os próprios polícias normais temem: os BOPE. E os BOPE não são para brincadeiras, quando entram nas favelas é para usar de todos os meios, independentemente de quais sejam, para atingir os seus fins. Traficante é traficante, guerra é guerra, e não há lugar para contemplações ou dúvidas. Para os BOPE só existem dois tipos de pessoas, os que estão com eles e os que não estão. No meio não está a virtude. Como afirma o Capitão Nascimento (Wagner Moura), que faz de narrador, se o BOPE não existisse, a cidade toda estava entregue aos traficantes.
José Padilha tem um passado ligado à área documental, e essa vertente não passa nada despercebida. O filme é um retrato duro, cru e realista sobre a vida, o trabalho e os problemas pessoais destes homens proibidos de ceder à fraqueza. A brutalidade usada pelos BOPE, que para apanhar os traficantes puxa dos mesmos métodos que este, não é aligeirada nem disfarçada. Ao mesmo tempo, leva-nos numa viagem ao centro das teias da burocracia e da corrupção existentes na polícia regular, teias essas que impedem quem quer trabalhar honestamente de o fazer. Sem meias-palavras nem floreados, Padilha mostra-nos o pior do sistema através do seu interior.
O que o filme tem de menos interessante acabam por ser as próprias personagens. O Capitão Nascimento, casado e esperando um filho, acha que é o momento certo para a retirada. Está cansado, e a mente começa a ceder. No entanto, não quer abandonar sem ter a certeza de encontrar alguém com qualidades para o substituir. E as qualidades são ser frio, profissional e impiedoso. Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro) são os candidatos para lhe suceder. Neto tem a mentalidade de uma máquina de matar, mas falta-lhe a inteligência. Matias tem a inteligência, mas falta-lhe a mentalidade. No geral são personagens sem densidade, que apenas estão lá para servir um papel e pouco mais, o que interessa á a acção.
Outro dos problemas é que o filme não tem uma mentalidade tão aberta quanto isso. Mostra a tomada de posições e o uso da violência dos BOPE como inevitável, e quem ataca esta posição é visto como um idealista mimado que nem sequer sabe o que é a vida nas ruas. Não me parece que seja uma decisão propositada do realizador ou que seja um espelho da sua opinião pessoal, mas uma vez contada a narrativa do lado da policia, o extremar de posições é difícil de evitar. Alias, essa é uma das principais características dos BOPE. Num país onde nada funciona, são obrigados a tornar-se autómatos para sobreviver, num processo onde o discernimento tem de ficar pelo caminho. Guerra é guerra.
Não se trata de uma continuação de "Cidade de Deus", mas tem algumas semelhanças. O tipo de edição, o ritmo, o ambiente de favela e mesmo alguns dos profissionais, entre eles o co-argumentista, são os mesmos. Mas Tropa de Elite é muito mais obscuro e fatalista. A música é pesada, a simbologia parece tirada do Rambo. Não há personagens simpáticos ou com um fundo bom. Entre polícia e bandido, a diferença não é assim tanta. Em certos pontos, o filme é portentoso e põe-nos o coração a bater mais forte, puxa-nos para a espiral de violência. Nós próprios, como espectadores, damos por nós a perder o discernimento. Não considero que glorifique a violência nem ela se torna no mais importante, é apenas a única solução. Quem for para a sala de cinema de mente aberta e deixar as ideias feitas do lado de fora, arrisca-se a uma agradável surpresa. Não está ao nível de "Cidade de Deus", mas é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. A não perder.
Classificação: 7/10
domingo, 17 de agosto de 2008
O Estado Mais Quente

Título Original: The Hottest State
Realização: Ethan Hawke
Ano: 2007
Baseado num romance escrito pelo próprio Ethan Hawke, The Hottest State é a segunda longa-metragem da sua carreira, depois do falhado "Chelsea Walls". Se o livro - segundo rezam as crónicas, porque não o li - era pouco recomendável, o filme não se pode ficar a rir. É mais um exemplo de que por vezes não vale a pena mexer no que está quieto, ou se quiserem, insistir no que nasce torto. Ethan Hawke não foi da mesma opinião e insistiu neste projecto pessoal. O resultado é um filme sem alma e sem substância, que a certo ponto torna-se mesmo aborrecido e repetitivo. É verdade que não é das piores coisas que anda pelas salas de cinema, mas não deixa de ser uma perda de tempo.
A história não tem muito que se lhe diga. William (Mark Webber) é um jovem aspirante a actor que abandonou o Texas com a mãe (Laura Linney) quando era criança. Fruto de um amor passageiro, fica sem qualquer contacto com o pai (Ethan Hawke), que permanece no Texas. Sara (Catalina Sandino Moreno) é uma latina que sonha em ser cantora. Contra a vontade da mãe (Sonia Braga), abandonou a sua cidade para estar sozinha e seguir o seu objectivo. Os dois vivem em Nova Iorque e apaixonam-se logo no início Como se trata de uma obra semi-biográfica, William é a personagem central. É pena, não porque Sara seja uma personagem mais interessante, mas porque pelo menos é bem mais gira. Voltando ao assunto, a primeira parte do filme assemelha-se a um drama adolescente. Quando tudo parece estar a correr às mil maravilhas entre os dois, inclusive com perspectivas de casamento, Sara decide que já não quer continuar a ver William. Nada que se possa condenar, até porque naquela altura já nem eu queria ver mais William. A partir daqui perde-se o tom de leveza e o filme afunda-se mais depressa que o Titanic.
O principal problema é que tudo soa a falso. O amor entre os dois não convence, as situações são forçadas, os diálogos vazios e insignificantes. Tudo fica ainda pior no momento da separação. Depois de uma viagem de sonho ao México, onde os dois passaram praticamente o tempo todo a fazer sexo e a declarar juras de amor, Sara diz a William que não pode estar com ele porque necessita de fazer a vida sozinha, ou algo que o valha. Simplesmente não faz sentido, ou se faz o filme não o mostra e devia. Quem está tão caída de amores como Sara precisa de uma razão mais forte para acabar a relação, que desse maior consistência ao drama. Assim sendo, se ela desse como motivo não gostar dos bifes de peru que William cozinha, a coisa não mudava muito.
É provável que algumas das relações entre jovens de 20 anos tenham este tipo de problemas de imaturidade, mas ao passá-los para o grande ecrã é preciso mais qualquer coisa. Não existe nada que nos faça aproximar das personagens, perceber os seus motivos, sofrer e rir com elas. Pelo contrário, são-nos mostradas como pretensiosas e falsas. Desta forma, não interessa absolutamente nada aos espectadores se eles acabam juntos, separados, divorciados ou solteiros. O que queremos é que acabe rápido, mas nem isso acontece. O filme estica-se por cerca de 1h50m completamente escusados, já que a história se contava facilmente em metade do tempo.
Depois da separação, William assume ainda mais o papel de protagonista. Angustiado, não aceita a decisão de Sara e tenta a todo o custo recuperá-la, na sua forma mimada e irritante. Sem surpresa, as tentativas desesperadas acabam sempre em frustração e sofrimento. Ainda vai ao Texas procurar o pai e os dois falam um pouco, mas não percebi bem a intenção que o levou a fazê-lo. Do que me lembro acho que queria que o pai lhe desse conselhos sobre como lidar com as mulheres, mas se calhar não era bem isso. O que acontece com o pai acontece também com todas as personagens secundárias: não se percebe o que estão lá a fazer, porque a verdade é que não estão a fazer nada.
Os planos no Texas e um ou outro no México são bons, a banda sonora é fantástica. Sónia Braga tem uma participação pequena, mas entra provavelmente na melhor cena do filme, um jantar dolorosamente estranho. Confesso que não fiquei nada convencido com a performance de Catalina Sandino Moreno, mas dou-lhe o benefício da dúvida porque o guião não ajudou em nada.
Actor de primeira, começo a suspeitar que Ethan Hawke não tem o dom para a realização. Nada de grave, não se pode ser bom a tudo.
Classificação: 2/10
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Toda a Gente Diz Que Te Amo

Usando um eufemismo, os anos 90 podem não coincidir exactamente com a melhor fase de Woody Allen. O que não quer dizer que os filmes dessa época não sejam brilhantes, são é um bocadinho menos que os anteriores . Desde "Manhattan Murder Mystery", passando por "Bullets Over Broadway" e este Everyone Says I love You, todas estas obras dos anos 90 valem a pena ser vistas, nem que seja só por uma vez. Tudo bem, não estão ao nível de "Annie Hall" ou "Hannah and Her Sisters", mas analisando bem, o contrário é que seria de estranhar. Nem todos os filmes têm de ser feitos para serem obras de arte que marcam a história do cinema e nem ninguém, por mais talento que seja, é capaz de o fazer. Woody Allen sabe-o bem.
Musical ao estilo clássico mas adaptado para o mundo moderno, Everyone Says I Love You é um filme leve e romântico sobre o amor nas suas mais variadas formas. Quando estão alegres, ou tristes ou melancólicas ou apaixonadas, as personagens desatam a cantar os sentimentos para toda a gente ouvir. De uma forma inocente e até tocante, despejam o coração em canções às quais se junta ainda o humor típico de Allen e o background habitual de uma Nova Iorque neurótica de classe média-alta.
A história é labiríntica. O filme abre com um muitos apaixonados, Holden (Edward Norton), a declarar o seu amor a Skylar (Drew Barrymore), ao som de"Just you, Just me". Os dois pretendem casar-se. Joe (Woody Allen) é um escritor a viver em Paris que colecciona relacionamentos falhados. A sua ex-mulher, Steffi (Goldie Hawn), e o seu marido actual, Bob (Alan Alda), ficam com a difícil tarefa de o confortar de tantas desilusões e de lhe tirar da cabeça a ideia do suicídio. A narradora da história é D.J. (Natasha Lyonne), filha de Steffi e Joe. D.J. é uma sonhadora que pensa descobrir o verdadeiro amor em cada novo namorado que arranja. E ainda temos as filhas do relacionamento de Steffi e Bob, Lane (Gaby Hoffmann) e Laura (Natalie Portman), que estão apaixonadas pelo mesmo rapaz; e o filho, Scott (Lukas Haas), um republicano ferrenho numa família de democratas.
Confuso, não é? Dito assim, é um bocado, se virem o filme, nem por isso. De coração partido, Joe decide ir de férias com a filha, D.J., para Veneza. No meio de tanto afogar mágoas, Joe conhece Von (Julia Roberts), e volta a apaixonar-se. Através de D.J., cuja mãe da melhor amiga é, por coincidência, psicóloga de Von, Joe tem acesso a informações sobre os desejos e gostos de Von. Usando as informações para seu proveito, aproxima-se de Von e faz com que ela se apaixone também por ele. Claro que tal farsa e imoralidade não podia dar grandes resultados a longo prazo, e num piscar de olhos Joe está sozinho de novo. Entretanto, Skylar apaixona-se perdidamente por um prisioneiro, Charles Ferry (Tim Roth) que a sua mãe lutou para tirar da prisão. No entanto, Charles não está tão reabilitado quanto isso.
Mas chega de falar na história. O importante é apreciar os momentos belos e hilariantes que levam a este desenrolar dos acontecimentos. Com excepção de Drew Barrymore, todos os actores usam as suas vozes nos números musicais. Enquanto uns se safam bem, outros têm boa voz para escrever à maquina, mas nem isso os faz silenciar. Não importa cantar mal, o essencial é sentir o amor. Ao mesmo tempo que levanta as questões existências normais em Woody Allen, é tudo tratado com a leveza de uma brisa e prevalece o sentimento de bem-estar e paz.
Os one-liners, para não variar, são de rir e chorar por mais. O filme não é perfeito, mas também não tem intenções de o ser. O tom e o ambiente que cria estão no ponto certo, e a cena final entre Steffi e Joe, recordando os velhos tempos, é um tratado sobre como fazer bom cinema, como gerir os tempos até um clímax cheio de beleza. A simplicidade é a chave, e o no fim do filme saímos com o coração acesso e liberto para o amor. Para os românticos e não só.
Classificação: 8/10
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Michael Clayton

sábado, 2 de agosto de 2008
Três Tempos
