
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Contas à Vida - 90's O Cabo do Medo

sábado, 20 de dezembro de 2008
Paris

sábado, 13 de dezembro de 2008
Amália

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Contas à vida - 80's Para Além do Paraíso

O tempo muda tudo. É uma das maiores tragédias da vida. Na maior parte das vezes nem damos por a sua chegada, vem devagar, suavemente, mas quando nos apercebemos, quando finalmente parámos e olhamos para trás, já nada é igual. É como o Jerónimo de Sousa nos seus constantes ataques ao capitalismo: não perdoa. E se à coisa em que podemos confiar é que não pára nunca, nem para ninguém. Jim Jarmusch não é excepção. Em 1984, Stranger Than Paradise foi recebido em Cannes em apoteose e constitui-se como um marco do cinema independente - que viria a desenvolver-se exponencialmente nos anos seguintes, com nomes como Wes Anderson, Spike Lee ou Steven Soderbergh, entre outros. Tornou-se um clássico. Visto hoje em dia, num contexto diferente, o seu maior valor vem do facto de sabermos por antecipação que se tratou de um dos primeiros filmes a desbravar novos caminhos. As suas qualidades continuam intactas, é certo, mas não foram potenciadas pelos anos. É um producto de uma época, e torna-se difícil dar-lhe o devido valor quando não é visto na data certa.
Em Stranger Than Paradise a história não é importante. Longe disso. As personagens, os ambientes, até os silêncios, são o tema central. Os diálogos são escassos, os cortes raros, os movimentos da câmara quase inexistentes e a imagem a preto e branco. Todos as cenas são separadas através de um pequeno periodo em que o ecrã se mantêm preto, sem imagens. No total, existem quatro personagens. É um trabalho minimalista de Jarmusch, levando a peito a expressão popular "menos é mais".
E a verdade é que quase nada acontece durante todo o filme, que se encontra dividido em três segmentos. No primeiro, Eva (Eszter Balint) vem da Hungria para visitar o seu primo Willie (John Lurie), em nova Iorque. Willie não vê com bons olhos a chegada da sua prima, e faz de tudo para a fazer ela se sentir excluida dentro de sua casa. No entanto, conforme o tempo vai passando, Willie vai-se aproximando de Eva. Entretanto, Eva vai para Cleveland, onde fica a viver com a tia. Um ano depois, Willie e o seu amigo Eddie (Richard Edson) deslocam-se para Cleveland com o objectivo de a visitar. Na última parte, os três deslocam-se para a Florida para passar férias, onde os dois amigos deixam Eva sozinha e entregue a si própria, isto enquanto se concentram nas apostas de corridas de cães e de cavalos.
Em traços gerais é esta a história. Willie, personagem principal, passa o tempo deitado, ou sentado, ou a ver televisão enquanto come enlatados. Nenhum plano lhe parece suficientemente bom para o fazer levantar e sair à rua, nenhum sonho futuro o motiva. Eva e Eddie acompanham-no em tudo que propõe, principalmente com o objectivo de matar o tédio. É sobre esta melancolia que o filme se debruça, a inaptidão social destas pessoas, deslocadas e desprovidas de sentido do seu papel na sociedade, em se adaptarem e sentirem-se pertencentes a algo. O que as personagens fazem (ou, neste caso, não fazem) tem um sentido. E no fim, apesar de alguns momentos de reflexão e análise, descobrem que apenas andarem para chegar ao ponto de partida. Um Leopardo não pode mudar as manchas, mas não é por isso que desistem de o tentar fazer. O resultado é a frustração.
No entanto, a falta de desenvolvimento narrativo acaba por cansar, isto apesar da curta duração (1h30). Os ambientes inóspitos fornecem a noção da frieza e estagnação das personagens face ao mundo, mas são também demasiado fastidiosos para os espectadores. Escusado será dizer que não é um filme acessível a toda a gente. Requer estômago e força de vontade, mais ainda se nunca conseguirmos entrar no espírito que propõe. Jarmusch parece andar a levar-nos a lado nenhum, a mostrar-nos imagens isoladas de propósito. No final, podem enrolar tudo na mesma manta e encontrar algum sentido capaz de fazer apreciar a mensagem, seja ela qual for. Se não for o caso, é certo que vão dar o tempo por muito mal empregue. De qualquer forma, vale a pena arriscar e visitar uma das obras mais influentes dos anos 80.
Classificação: 5/10
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Margot e o Casamento

sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Arte de Roubar

quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Contas à Vida - 80´s Os Dias da Rádio

quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Estrela Solitária

Em 1984, Wim Wenders e Sam Shepard uniram esforços para uma aventura épica pelas paisagens desérticas e áridas da América profunda. "Paris, Texas", magnífico filme sobre um homem obrigado a lidar com as feridas profundas de um passado cheio de sonhos perdidos, saiu de Cannes com a palma de Ouro. Vinte e dois anos depois, a receita repete-se em "Don´t Come Knocking", com a dupla Wenders/Shepard a procurar o brilho de outros tempos. O resultado é em vários aspectos idêntico, repetindo-se temáticas e ambientes, mas o "refogado" já não é da mesma qualidade.
Howard Spence (Sam Shepard) é um outrora famoso actor de westerns, cuja popularidade se perdeu com o passar dos tempos e com o consumo abusivo de álcool, entre outros vícios. O típico "has been". Durante a gravação de um filme que, pela amostra, tem todas as condições para se tornar mais um falhanço numa carreira que se arrasta, Howard decide abandonar as gravações e partir em busca de algum sentido na sua vida. No seu estilo "cowboy", parte num cavalo com direcção incerta, deixando os produtores do filme à beira de um ataque de nervos.
Sem destino certo na fuga, Howard pensa ser a altura ideal para visitar a mãe (Eva Maria Sain) que já não vê à cerca de trinta anos, numa cidade perdida no Nevada. E é a mãe que lhe revela, inocentemente, que tem um filho já adulto de uma relação antiga, mantida durante a gravação de um filme em Montana. Incapaz de ignorar este facto, Howard parte em busca do filho e da antiga namorada.
Don't Come Knocking é um filme cuja acção de passa no presente, mas tudo evoca tempos antigos. Desde os cenários desérticos, passando pelo ritmo lento a que as personagens se movem ou ao livro de recortes que a mãe de Howard guarda com as notícias sobre o filho. Numa das melhores cenas do filme, Howard senta-se junto à janela, com o néon gasto de um casino a brilhar sobre ele. É deste material que o filme é feito, personagens gastas em busca de bocados do passado que parecem cada vez mais distante.
Entretanto, Howard encontra o filho Earl (Gabriel Mann), a antiga namorada Doreen (Jessica Lange) e ainda uma outra filha de que desconhecia a existência, Sky (Sarah Polley). Mas as coisas não estão fáceis para o seu lado. Com a excepção de Sky, que sonha em conhecer o pai e deambula pelo filme sempre com um ar inocente e conciliatório, nem Earl nem Doreen vêem com bons olhos a visita surpresa de Howard. O resto do filme contempla os esforços de Howard para se reconciliar com a família, e pouco a pouco vai conseguindo atingir os seus objectivos. Mas a verdade é que não existem esforços suficientes que façam o tempo andar para trás. Quando Howard, numa tentativa de encontrar alguma estabilidade na sua vida, pergunta a Doreen se quer voltar para ele, a gargalhada que obtém como resposta é esclarecedora.
O trabalho de fotografia é fantástico, retirando por vezes o foco às próprias personagens. A beleza visual confere-lhe um carácter romântico e nostálgico que, numa obra claramente imperfeita e irregular, é meio caminho andado para se apreciar o filme. O próprio facto de Sam Shepard ter passado tanto tempo a participar em filmes de qualidade duvidosa dá-lhe uma visão mais esclarecedora do que é sentir-se uma estrela fora do seu tempo. E essa experiência pode ter contribuído para a qualidade do guião que escreveu e da sua performance no ecrã.
Don´t Come knocking é capaz de nos entreter, mas incapaz de nos ligar realmente à história e às personagens. Será por certo rapidamente esquecido, se é que já não o foi pela maior parte das pessoas, mesmo as que o viram. Não deixa por isso de ser uma daquelas obras nostálgicas que, sem ser nada de espectacular, nos fazem passar um bom bocado na sala de cinema. Wim Wenders e Shepard nem parecem ter-se preocupado por aí além em fazer um filme perfeito, ou em fazer com que todas as cenas resultassem em cheio. E quem for também capaz de apreciar a imperfeição, não dará o tempo por perdido.
Classificação: 6/10
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Aquele Querido Mês de Agosto

quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Bem-vindo ao Turno da Noite

quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Por Favor Rebobine

Título Original: Be Kind Rewind
Realização: Michel Gondry
Ano: 2007
Não só com as palavras Charlie Kaufman se escreve o talento de Michel Gondry. Esta é apenas a primeira das boas novidades que este filme nos traz. Be Kind Rewind deixa a imaginação e a nostalgia à solta, recordando-nos os nossos sonhos de criança e a ingenuidade de quem insiste em não deixar o tempo passar. Pelo menos, não sem dar luta. É delirante, hilariante e a espaços dramático e comovedor. Com o acento tónico na criatividade, mostra como com pouco é possível fazer-se muito. Após o fantástico e inigualável Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, é de saudar o regresso à excelente forma de Michel Gondry. As comparações, no entanto, deixem-as por casa: trata-se de duas obras em quase tudo distintas.
A tecnologia atropela-nos a todos. O que hoje é bom, amanhã é obsoleto, o que hoje é verdade, amanhã pode muito bem ser mentira. De tantas mudanças e de tão veloz ritmo a que acontecem, por vezes só nos apetece pedir um desejo: que por uns instantes, pequenos que sejam, fique tudo na mesma. Com a entrada dos dvd´s no mercado, o VHS, rei e senhor durante os 80´s, viu os dias contados. No entanto, as memórias dos tempos de rebobinar cassetes antes de as entregar no videoclube, para evitar a multa, não desaparecem com tanta facilidade. É por essa razão que em Passaic, New Jersey, um pequeno clube de vídeo de bairro, o Be Kind Rewind, insiste em preservar a simplicidade. Antigo lar de um lendário cantor jazz, Fats Waller, cuja música e espírito ainda se sente no ar, dvd´por ali, nem sonhar em vê-los.
Mas nem tudo corre como previsto na Be Kind Rewind. O prédio onde se encontra necessita de obras urgentes e a câmara tem um projecto em andamento para se apropriar do prédio e destruir a loja, em detrimento de uma fachada mais moderna. Mr. Fletcher (Danny Glover), o dono, necessita de gerar lucros urgentemente para proceder às obras. Parte então numa viagem de reconhecimento das necessidades do mercado, analisando o porquê de não conseguir vendas significativas. Entretanto, Mike (Mos Def), o empregado, fica encarregue de gerir o negócio. Simples e inocente, procura reunir todos os esforços para não desiludir Mr. Fletcher, mas o azar parece destinado a tramá-lo.
Jerry (Jack Black) é o mecânico local, ligeiramente maluco e com propensão para os desastres. Paranóico com a rede de cabos de alta tensão na cidade, que pensa estar a controlar-lhe a mente, acaba por apanhar um choque eléctrico ao tentar desligá-la. Magnetizado, apaga inadvertidamente todas as cassetes de vídeo na Be Kind Rewind, para desespero de Mike. E quando Miss Falewicz (Mia Farrow), amiga de Mr. Fletcher e uma cliente habitual, pretende alugar o filme Ghostbusters, só lhes sobra uma solução: pegarem na câmara e filmarem-no eles mesmo. Com sorte, pensam, ela nem dá pela diferença.
É a partir deste momento que a verdadeira loucura se inicia. Todos os meios valem, qualquer pessoa é um actor. “Driving Miss Daisy,” “Rush Hour 2” ou o "Rei Leão". O importante é acabar as filmagens a tempo e horas. Mais espectacular ainda é que é visível que Jack Black e Mos Def estão realmente a divertir-se com tamanha insanidade. Com a ajuda de Alma (Melonie Diaz), uma empregada da lavandaria arrancada à força do trabalho para as filmagens, a reencenação de filmes clássicos parece não ter fim. Por estranho que pareça, os filmes são um sucesso e Mike e Jerry tornam-se as estrelas locais.
Em certos aspectos, Be Kind Rewind é uma fábula enternecedora, um reviver dos tempos do VHS, em que os filmes se tornaram acessíveis e serviam como um meio de união entre as pessoas, de imaginação e de escape. É uma luta contra o tempo, que as personagens sabem perdida, mais cedo ou mais tarde. O que não as faz desistir, mas aprender a aproveitar o que resta. Até o título, para os mais distraídos, chama para tempos idos: Be Kind Rewind.
O espírito é de diversão, a pura e simples diversão. É o que o cinema deve ser e o que importa para as pessoas. Acima de efeitos especiais, argumentos complicados ou orçamentos chorudos. Quem adora cinema, quem cresceu a ver cinema, vai de certo identificar-se com o filme e perceber do que estamos a falar. Michel Gondry, de quem sou fã mais que confesso, volta a criar um ambiente de magia narrativo e visual que, actualmente, é único. Outra coisa que o cinema deve ser, único.
Com um equilíbrio incrivelmente conseguido em termos de humor e nostalgia, é capaz de, num momento, nos fazer rir à gargalha de invenções tão geniais e amadoras como o raio laser dos Ghostbusters feito de serpentinas, e de seguida, nos mostrar como a vida desafia cruelmente os que se recusam a obedecer às leis do tempo. O ponto de vista inocente das personagens aquece-nos o coração e faz-nos sentir parte da comunidade, e conseguir ver a cena final sem nos deixarmos comover, por pouco que seja, é digno de um rochedo centenário e bem fixo à terra. Deixar passar este filme é um pecado que, acreditem em mim, não querem cometer. Pelo menos se adoram cinema.
Classificação: 10/10
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Odete

sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Destruir Depois de Ler

terça-feira, 23 de setembro de 2008
Juno

Juno, filme saído do circuito independente americano, foi a grande surpresa de 2007. Produzido com um baixo orçamento, atingiu lucros milionários e foi uma das presenças mais notadas na cerimónia dos Óscares, com nomeações para melhor actriz, melhor realizador, melhor argumentista e melhor filme. De certa forma, um percurso que em muito faz lembrar o conseguido por Little Miss Sunshine, em 2006. E até no estilo utilizado os dois filmes são semelhantes, tratando-se de comédias dramáticas ternurentas, que nos fazem aproximar das personagens e acabam por nos deixar o coração mole. São os denominados "feel-good movies". Mas se em Little Miss Sunshine o hype foi um pouco exagerado, em Juno justifica-se totalmente. É, em vários aspectos, um filme superior e um exemplo de como se pode ter sucesso a realizar seguindo prioritariamente o instinto e as paixões.
Quero com isto dizer que embora Juno não seja tecnicamente perfeito, tem um coração tão grande que nos faz esquecer o resto. Ou dizendo melhor, ainda bem que não é perfeito, porque são as pequenas imperfeições que lhe dão a piada que tem. Ver Juno assemelha-se, em certos aspectos, a assistir a uma prova de natação sincronizada nos jogos olímpicos: parece tudo tão simples, mas funciona tão bem. Estranha analogia, eu sei, mas é a que melhor me ocorre para definir o porquê de Juno ser tão bom. Embora não seja uma obra-prima nem contenha elementos de realização capazes de fazer corar Martin Scorcese, também ninguém se preocupou minimamente em que assim fosse. Não é esse, nem de perto nem de longe, o objectivo de Reitman e companhia. A prioridade é dada à simplicidade, ao humanismo e ao amor.
E funciona tão bem, tão bem que é impossível acabar de ver este filme e não sentir, nem que só por uns minutos, que o mundo é um lugar onde predomina a alegria. É também para isto que serve o cinema, para nos proporcionar momentos leves e descomplexados, que funcionem como um pequeno escape da realidade. Ellen Page protagoniza o papel de de Juno MacGuff, uma jovem rebelde e desenrascada de 16 anos que, num golpe de azar, engravida depois de ter relações sexuais com o seu melhor amigo, Paulie (Michael Cera). E para engravidar só foi preciso tentar uma vez, uma tarde de férias onde o tédio reinava. Apanhada de surpresa, Juno procura uma clínica para efectuar o aborto, mas à última da hora a sua consciência não a deixou continuar. Mesmo tendo em conta todas as dificuldades, Juno decide levar a gravidez até ao fim. Durante este processo Paulie, envergonhado e introvertido, não tem voto na matéria.
Juno, embora decida levar a gravidez até ao fim, considera-se muito nova para cuidar de um bebé. Com a ajuda da sua amiga Leah (Olivia Thirby), que lhe sugere a opção de dar o filho, procura no jornal anúncios para pretendentes a pais adoptivos (pelos vistos na América isto é possível). E encontra Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), um casal que vive numa típica casa "bonitinha" dos subúrbios e que deseja ardentemente ter um filho. Ou melhor, Vanessa deseja, porque Mark, cuja mentalidade parou pelos 80's, vai revelando algumas reservas.
Daí para a frente seguimos o evoluir da gravidez de Juno e as dificuldades e dúvidas inesperadas que, aproximando-se o dia do parto, vão surgindo na sua cabeça. A sua leveza e ingenuidade inicial ao lidar com toda esta situação vai dando subtilmente lugar a emoções sérias sobre as dificuldades que esta implica. E entre sequências genuinamente engraçadas, diálogos inteligentes e one-liners hilariantes e perfeitos para a personagem de Juno, somos obrigados a ceder e a comover-nos com a seriedade do momento que vive o dos que se aproximam, em especial o de dar o bebé aos pais adoptivos.
Dentro do ecrã, Ellen Page faz a festa, atira os foguetes e só não apanha as canas porque todos os outros actores assimilaram muito bem os seus papéis e cumpriram na perfeição. Jason Reitman também cumpre na realização, acertando em cheio no tom necessário para o filme e conseguindo demonstrar uma maturidade e segurança que só podem augurar coisas boas para o futuro. Mas apesar de tudo isto, o destaque tem de ir direitinho para a argumentista, Diablo Cody. Há uns anos trabalhava como stripper, hoje tem um Óscar em casa a enfeitar a estante. No seu primeiro guião, Diablo conseguiu um impressionante equilibrar entre subtileza, humor, ingenuidade e até pretensiosismo. Está tudo lá, o bom, o mau, e o mais ou menos. Com odesenvolvimento de narrativa clássico dos filmes de Hollywood, Diablo Cody mostra que é fácil ser-se genial sem precisar de se inventar nada.
Analisando bem, é um filme honesto sobre como encontrar o nosso caminho e o valor das relações humanas e do amor. Quem o acusou, entre outras coisas, de ser um panfleto anti-aborto simplesmente não viu Juno ou não sabe do que está a falar. A banda sonora é , no geral, óptima, mas atenção especial para o momento em que toca "Sea of Love", cover da autoria de Cat Power, numa altura crucial e em que as emoções estão mais ao flor a pele. Se existe perfeição, garanto, ela está nessa sequência. O veredicto para mim é simples: por mais que procurem, dificilmente encontram por aí melhor.
Classificação: 10/10
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
O Sabor do Amor

Título Original: My Blueberry Nights
Realização: Wong Kar Wai
Ano: 2007
De falta de pontaria Wong Kar Wai não se pode queixar. Logo no seu primeiro filme rodado na América, com um elenco inteiramente americano e inglês e falado em língua inglesa, espalhou-se totalmente ao comprido. Os antecedentes de Kar Wai, esses, não enganam: o homem sabe mesmo o que faz. Com um estilo visual único, é um especialista em observar a vida através de momentos, texturas, neons perdidos ou slow motions cobertos por músicas nostálgicas (quem não se lembra da banda sonora de Nat king Cole, em "In The mood for love"). O controlo da linguagem visual está-lhe no sangue, não deixa um plano por pensar, baralha as imagens e volta a dar, sabe mexer-nos os sentimentos. A principal força de Kar Wai, que o tornou num ícone do cinema, é essa mesmo, a de contar histórias por fragmentos dispersos, libertos, poéticos.
É por isso natural que as expectativas fossem altas, mas infelizmente não se vieram a confirmar. Por muito que custe aos fãs do realizador chinês (nos quais me incluo) admitir, "My Blueberry Nights" é um filme muito fraquinho. Se calhar muito fraquinho até é um elogio. As características dos seus filmes anteriores estão todas lá: uma história melancólica, personagens solitários em sofrimento, amores mal resolvidos, uma atmosfera nostálgica, olhares que substituem as falas, o sugerir em detrimento do mostrar. A diferença é que aqui nenhum destes aspectos funciona, e quando assim é só servem para irritar e piorar a situação.
O problema principal é que o filme não arranca, as personagens roçam a banalidade e o patamar de beleza e magia que Kar Wai ambicionava atingir ficou-se por palavras soltas e sem sentido, desprovidas de contexto. Dos actores é que ninguém se pode queixar, com interpretações fantásticas, na medida do possível, de Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman e Rachel Weisz. E a mudança da acção das ruas de Hong Kong para Nova Iorque e para o interior da América, com os seus bares, restaurantes e casinos, também resulta muito bem, o que só faz imaginar ainda mais a fantástica obra que Kar Wai, se inspirado, podia ter feito.
"My Blueberry Nights" é descrito como um "road movie", mas na verdade só o é a partir de metade do filme. Até esse ponto, acompanhamos a aproximação amorosa entre Jeremy (Jude Law), um inglês proprietário de um café em Nova Iorque, e Elizabeth (Norah Jones na sua estreia como actriz), uma rapariga ingénua com o coração destroçado após romper a relação com o namorado de longa data. Elizabeth, a necessitar de desabafar, deambula pelo café de Jeremy durante a noite, e os dois estabelecem uma intimidade muito especial. No meio de tudo isto, Elizabeth torna-se adoradora da tarte de mirtilo (Blueberry pie) de Jeremy, uma metáfora pouco conseguida para a solidão. A história esgota-se rápido e o tempo demora muito, muito a passar.
Até que Elizabeth decide fazer-se à estrada e mudar a sua vida, enfrentado-a de frente. Mete-se numa camioneta e parte para Memphis, onde trabalha num café de dia e num bar durante a noite. É aí que conhece Arnie (David Strathairn), um polícia alcoólico e solitário, incapaz de aceitar o fim do casamento com a sua ainda mulher, Sue Lynne (Rachel Weisz). Arnie frequenta os dois estabelecimentos onde Elizabeth trabalha, e desabafa com ela por diversas vezes. O que era suposto ser um trágico conto amorosa, capaz de tocar ao coração de uma pedra, acabou por se revelar uma história manca e frouxa, com vários aspectos mal explorados e situações pouco inverossímeis.
Adiante. Elizabeth abandona Memphis e segue viagem para Nevada, onde arranja trabalho a servir bebidas num casino. Leslie (Natalie Portman num estilo muito "cool") é uma jogadora de póquer que aprendeu tudo o que sabe com o pai. É atrevida, aventureira e gaba-se de saber ler as emoções nas pessoais e de não confiar em ninguém, incluindo ela própria. Ou seja, é tudo o que Elizabeth não é. Depois de alguns incidentes, as duas partem juntas para Las Vegas numa viagem de carro, onde cada uma procura perceber que emoções se escondem por detrás das capas exteriores. Ambas têm algo que necessitam de aprender com a outra, e é esse o princípio da sua amizade.
Mas esta história também não escapa ao vulgar, e fica de nova a sensação de que o que sobra em maneirismos falta em substância. Kar Wai não sabe filmar as suas personagens sem lhe dar o toque pessoal. Seja um desfoque, uma luz, um vidro. E se esse aspecto vai funcionando enquanto o filme se passa em Nova Iorque, perde completamente o interesse quando se desloca para as grandes planícies americanas. Junta-se-lhe a falta de consistência do argumento e temos uma segunda parte de filme bem aborrecida.
O melhor do filme ficou guardado para o cameo de Chan Marshall, mais conhecida entre nós como Cat Power. É um daqueles momentos que nos faz recordar a beleza que, se bem feito, pode ser o cinema. Embora sejam só 2 ou 3 minutos, compensa o investimento inteiro. Assim fossem os outros 87 minutos...
Classificação: 3/10
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
O Segredo de um Cuscuz

Título original: La Graine et le Mulet
Realização: Abdel Kechiche
Ano: 2007
Abdel Keniche é um realizador de origem Tunisina, mas radicado em França desde muito novo. Não é por isso de estranhar que os seus filmes tenham como tema a experiência dos emigrantes árabes na França e a complexidade da sua adaptação ao território. Neste "O Segredo de um Cuscuz", o protagonista é Slimane Beiji (Habib Boufares), um homem na casa dos 60 anos que, depois de toda uma vida a trabalhar no cais a reparar barcos, é considerado dispensável pelos patrões. Os argumentos que lhe apresentam são simples: está velho, é lento e deixou de ser rentável. Encurralado por esta situação e a necessitar desesperadamente de um ganha pão, Slimane decide tentar concretizar um sonho, o de abrir um restaurante.
Mas a luta de Slimane por ultrapassar os obstáculos necessários para conseguir levar para a frente a ideia do restaurante está longe de ser o tema principal. Pelo contrário, funciona apenas como motor para apresentar as realidades sociais e pessoais da comunidade magrebina no geral, e desta família em particular. O ritmo do filme é lento, dolorosamente lento, as cenas correm por demasiado tempo, os diálogos e situações são do mais trivial que se imagine e os close-ups constantes. Tudo isto junto contribui para um realismo de certo modo apelador, mas também a um certo desequilíbrio dramático e a espaços alieanador.
Slimane é uma pessoa triste e conformada que vive num quarto do hotel cuja dona é a sua namorada, Latifa (Hatika Karaoui). Latifa tem uma filha, Rym (Hafsia Herzi), que considera Slimane seu pai e que lhe dá preciosas ajudas durante todo o filme. Souad (Bouraouia Marzouk) é a ex-mulher de Slimane e os filhos ainda acreditam numa reconciliação entre os dois. Quase nenhum dos filhos aceita a relação entre o pai, Slimane, e Latifa. Mas chega de falar das personagens e das relações entre elas, que, alias, são tantas que não saiamos daqui.
O mais importante não é a história nem as voltas (poucas) que ela dá, mas sim mostrar a luta diária destas pessoas, pegar num pedacinho das suas rotinas e expô-las no ecrã. É um filme duro e a exigir estômago, com uma banda sonora praticamente inexistente e uma banalidade que nos leva quase ao desespero. O milagre aqui é que, perante este estilo narrativo, primeiro estranha-se e depois entranha-se. Ou seja, no início só nos apetece sair porta fora e maldizer o dinheiro dado pelo bilhete, mas conforme o tempo vai passando vamo-nos habituando às personagens, aos seus tiques e às suas particularidades, identificamo-nos com elas e já não as queremos deixar. Mais importante, revemo-nos nas suas discussões insignificantes e no intimismo delas reconhecemos algumas das nossas próprias quezílias familiares.
É um filme naturalista cheio de potência dramática, que exige um pouco de paciência mas que acaba por compensar. Infelizmente, como já referi, a sua maior força é também a maior fraqueza. Estende-se por demasiado tempo (cerca de 2h e 30m) e não é um género que chame muitos adeptos. É um daqueles filmes que vemos uma vez na vida, mas nunca pensamos em revê-lo. Mas não deixa por isso de ser um retrato pungente da vida de uma população que não vive adaptado ao pais que os adoptou, que não consegue deixar a classe baixa, dos empregos instáveis e não-qualificados.
Por tudo o que referi, "O Segredo de um Cuscuz" é um filme muito conseguido, com grandes interpretações e uma grandeza que só não é maior por ter um final completamente desastroso. Não fosse esse facto, e estávamos perante uma obra quase perfeita, dentro do seu estilo. Assim sendo, não se consegue evitar uma pequena sensação de vazio ao abandonar a sala.
Classificação: 6/10
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Contas à Vida - 60's Dr. Estranho Amor

Título Original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
Realização: Stanley Kubrick
Ano: 1964
Década de 60, a guerra fria atinge o seu auge, o conflito nuclear é uma ameaça séria à sobrevivência e as pessoas vivem em permanente medo e ansiedade. Duas potências confrontam-se num conflito sem fim à vista. O que fazer perante esta situação dramática? Stanley Kubrick tinha a resposta: uma comédia, e provavelmente a mais deliciosa comédia alguma vez feita. É assim que se vêem os génios: pega-se numa situação de iminente catástrofe e põe-se toda a gente a rir. Não é preciso efeitos especiais (poucos havia na época), nem histórias demasiado complexas e nem sequer muitos actores (Peter Sellers desempenha o papel de três personagens). Parece fácil, mas vai-se a ver é até bastante complicado, e provavelmente só Stanley Kubrick para nos trazer esta obra-prima. Quando se sabe...
Mas Stanley Kubrick não faz milagres sozinho. Ter Peter Sellers como protagonista ajuda e não é pouco, e o resto do elenco também não lhe fica a dever nada. O que mais impressiona é que nada é deixado ao acaso, tudo bate certo. Todos os movimentos, falas, expressões roçam a perfeição. A forma como é construída a tensão, o ritmo e a insanidade crescente é isenta de falhas. Apesar de toda uma carreira de fazer inveja, a realizar filmes brilhantes, a reinventar géneros e a influenciar movimentos, Stanley Kubrick conseguiu aqui o seu trabalho mais completo.
Dr. Strangelove não é uma comédia vazia de significado, muito pelo contrário. Embora não deixe nunca de ser hilariante, é um retrato bem sério dos tempos que se viviam e dos riscos de incontáveis perdas humanas, caso a insensatez continuasse a reinar. Uma visão aterradora que Kubrick nos oferece, mais importante que mil teses juntas sobre os efeitos da guerra fria. O sarcasmo e a ironia são uma constante, e o absurdo atinge níveis impensáveis - a conversa telefónica entre o presidente americano e o líder da União Soviética é o melhor exemplo disso.
Jack Ripper (Sterling Hayden) é um general da força aérea que perdeu completamente a noção da realidade. Está convencido que os comunistas estão a planear danificar os "preciosos fluidos corporais" dos americanos e ordena um ataque nuclear aéreo aos soviéticos, sem autorização dos superiores. O presidente (Peter Sellers), por seu lado, organiza uma reunião de emergência no pentágono para solucionar a crise e trazer de volta o avião enviado para lançar a bomba. Mas para que o avião regresse é necessário que Ripper revele o código para o efeito, e este recusa-se a fazê-lo. Para aumentar o problema, o embaixador russo na América revela que se a União Soviética for atingida por uma bomba nuclear, fará activar automaticamente um mecanismo denominado "Doomsday Machine", que tem como objectivo matar toda a vida na Terra.
A solução não está fácil de se encontrar e o tempo começa a escassear. Já em desespero, o presidente manda chamar o Dr. Stangelove (Peter Sellers), um cientista excêntrico ex-nazi que apresenta as propostas mais bizarras que se possa imaginar, e também os momentos mais hilariantes que se possa imaginar. Para mais, tem uma mão biónica que parece ter vontade própria e que volta e meia o tenta estrangular ou faz a saudação nazi. E como se ainda não fosse suficiente, o embaixador russo está mais preocupado em fotografar os segredos contidos na sala do pentágono do que em salvar o mundo da destruição.
A cena final, onde o Major 'King Kong' (Slim Pickens) se monta em cima da bomba em histeria, como se de um cavalo se tratasse, é de antologia. 34 Anos depois, o mundo deu muitas voltas, mas é como se os anos não tivessem passado para este filme. Tão assustador e cómico como no dia de lançamento, é uma verdadeira lição. Garanto-vos, o cinema não fica melhor que isto.
Classificação: 10/10
terça-feira, 26 de agosto de 2008
O Homem do Tempo

quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Tropa de Elite

Título Original: Tropa de Elite
Realização: José Padilha
Ano: 2007
Urso de Ouro no Festival de Berlim e sucesso garantido mesmo antes de estrear, Tropa de Elite chega-nos do Brasil com o rótulo de filme-sensação, na senda do fantástico "Cidade de Deus". E para aumentar a curiosidade, nem falta a polémica: alguns espectadores aplaudem fervorosamente, outros, chocados, consideram uma incitação à violência mais primária e saem a meio. Não se pode agradar a gregos e a troianos, e José Padilha nem parece ter-se preocupado muito com isso. Pelos lados de cá o tema ainda é visto como algo que não nos afecta, do qual guardamos certo distanciamento. Por essa razão, conseguimos com mais facilidade analisar o filme pelo filme, friamente e deixando de lado as nossas emoções e opiniões pessoais. Mas vamos pelo princípio.
Tropa de Elite passa-se nas favelas do Rio de Janeiro, as mesmas favelas (ou então muito parecidas) de "Cidade de Deus". Mas tem uma grande diferença: o foco da atenção não é dado às pessoas e traficantes que lá vivem, mas à polícia que tem a quase impossível missão de pôr ordem no assunto. E não se trata de uma polícia qualquer, mas de uma "tropa de elite" que os próprios polícias normais temem: os BOPE. E os BOPE não são para brincadeiras, quando entram nas favelas é para usar de todos os meios, independentemente de quais sejam, para atingir os seus fins. Traficante é traficante, guerra é guerra, e não há lugar para contemplações ou dúvidas. Para os BOPE só existem dois tipos de pessoas, os que estão com eles e os que não estão. No meio não está a virtude. Como afirma o Capitão Nascimento (Wagner Moura), que faz de narrador, se o BOPE não existisse, a cidade toda estava entregue aos traficantes.
José Padilha tem um passado ligado à área documental, e essa vertente não passa nada despercebida. O filme é um retrato duro, cru e realista sobre a vida, o trabalho e os problemas pessoais destes homens proibidos de ceder à fraqueza. A brutalidade usada pelos BOPE, que para apanhar os traficantes puxa dos mesmos métodos que este, não é aligeirada nem disfarçada. Ao mesmo tempo, leva-nos numa viagem ao centro das teias da burocracia e da corrupção existentes na polícia regular, teias essas que impedem quem quer trabalhar honestamente de o fazer. Sem meias-palavras nem floreados, Padilha mostra-nos o pior do sistema através do seu interior.
O que o filme tem de menos interessante acabam por ser as próprias personagens. O Capitão Nascimento, casado e esperando um filho, acha que é o momento certo para a retirada. Está cansado, e a mente começa a ceder. No entanto, não quer abandonar sem ter a certeza de encontrar alguém com qualidades para o substituir. E as qualidades são ser frio, profissional e impiedoso. Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro) são os candidatos para lhe suceder. Neto tem a mentalidade de uma máquina de matar, mas falta-lhe a inteligência. Matias tem a inteligência, mas falta-lhe a mentalidade. No geral são personagens sem densidade, que apenas estão lá para servir um papel e pouco mais, o que interessa á a acção.
Outro dos problemas é que o filme não tem uma mentalidade tão aberta quanto isso. Mostra a tomada de posições e o uso da violência dos BOPE como inevitável, e quem ataca esta posição é visto como um idealista mimado que nem sequer sabe o que é a vida nas ruas. Não me parece que seja uma decisão propositada do realizador ou que seja um espelho da sua opinião pessoal, mas uma vez contada a narrativa do lado da policia, o extremar de posições é difícil de evitar. Alias, essa é uma das principais características dos BOPE. Num país onde nada funciona, são obrigados a tornar-se autómatos para sobreviver, num processo onde o discernimento tem de ficar pelo caminho. Guerra é guerra.
Não se trata de uma continuação de "Cidade de Deus", mas tem algumas semelhanças. O tipo de edição, o ritmo, o ambiente de favela e mesmo alguns dos profissionais, entre eles o co-argumentista, são os mesmos. Mas Tropa de Elite é muito mais obscuro e fatalista. A música é pesada, a simbologia parece tirada do Rambo. Não há personagens simpáticos ou com um fundo bom. Entre polícia e bandido, a diferença não é assim tanta. Em certos pontos, o filme é portentoso e põe-nos o coração a bater mais forte, puxa-nos para a espiral de violência. Nós próprios, como espectadores, damos por nós a perder o discernimento. Não considero que glorifique a violência nem ela se torna no mais importante, é apenas a única solução. Quem for para a sala de cinema de mente aberta e deixar as ideias feitas do lado de fora, arrisca-se a uma agradável surpresa. Não está ao nível de "Cidade de Deus", mas é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. A não perder.
Classificação: 7/10