
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Margot e o Casamento

sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Arte de Roubar

quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Contas à Vida - 80´s Os Dias da Rádio

quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Estrela Solitária

Em 1984, Wim Wenders e Sam Shepard uniram esforços para uma aventura épica pelas paisagens desérticas e áridas da América profunda. "Paris, Texas", magnífico filme sobre um homem obrigado a lidar com as feridas profundas de um passado cheio de sonhos perdidos, saiu de Cannes com a palma de Ouro. Vinte e dois anos depois, a receita repete-se em "Don´t Come Knocking", com a dupla Wenders/Shepard a procurar o brilho de outros tempos. O resultado é em vários aspectos idêntico, repetindo-se temáticas e ambientes, mas o "refogado" já não é da mesma qualidade.
Howard Spence (Sam Shepard) é um outrora famoso actor de westerns, cuja popularidade se perdeu com o passar dos tempos e com o consumo abusivo de álcool, entre outros vícios. O típico "has been". Durante a gravação de um filme que, pela amostra, tem todas as condições para se tornar mais um falhanço numa carreira que se arrasta, Howard decide abandonar as gravações e partir em busca de algum sentido na sua vida. No seu estilo "cowboy", parte num cavalo com direcção incerta, deixando os produtores do filme à beira de um ataque de nervos.
Sem destino certo na fuga, Howard pensa ser a altura ideal para visitar a mãe (Eva Maria Sain) que já não vê à cerca de trinta anos, numa cidade perdida no Nevada. E é a mãe que lhe revela, inocentemente, que tem um filho já adulto de uma relação antiga, mantida durante a gravação de um filme em Montana. Incapaz de ignorar este facto, Howard parte em busca do filho e da antiga namorada.
Don't Come Knocking é um filme cuja acção de passa no presente, mas tudo evoca tempos antigos. Desde os cenários desérticos, passando pelo ritmo lento a que as personagens se movem ou ao livro de recortes que a mãe de Howard guarda com as notícias sobre o filho. Numa das melhores cenas do filme, Howard senta-se junto à janela, com o néon gasto de um casino a brilhar sobre ele. É deste material que o filme é feito, personagens gastas em busca de bocados do passado que parecem cada vez mais distante.
Entretanto, Howard encontra o filho Earl (Gabriel Mann), a antiga namorada Doreen (Jessica Lange) e ainda uma outra filha de que desconhecia a existência, Sky (Sarah Polley). Mas as coisas não estão fáceis para o seu lado. Com a excepção de Sky, que sonha em conhecer o pai e deambula pelo filme sempre com um ar inocente e conciliatório, nem Earl nem Doreen vêem com bons olhos a visita surpresa de Howard. O resto do filme contempla os esforços de Howard para se reconciliar com a família, e pouco a pouco vai conseguindo atingir os seus objectivos. Mas a verdade é que não existem esforços suficientes que façam o tempo andar para trás. Quando Howard, numa tentativa de encontrar alguma estabilidade na sua vida, pergunta a Doreen se quer voltar para ele, a gargalhada que obtém como resposta é esclarecedora.
O trabalho de fotografia é fantástico, retirando por vezes o foco às próprias personagens. A beleza visual confere-lhe um carácter romântico e nostálgico que, numa obra claramente imperfeita e irregular, é meio caminho andado para se apreciar o filme. O próprio facto de Sam Shepard ter passado tanto tempo a participar em filmes de qualidade duvidosa dá-lhe uma visão mais esclarecedora do que é sentir-se uma estrela fora do seu tempo. E essa experiência pode ter contribuído para a qualidade do guião que escreveu e da sua performance no ecrã.
Don´t Come knocking é capaz de nos entreter, mas incapaz de nos ligar realmente à história e às personagens. Será por certo rapidamente esquecido, se é que já não o foi pela maior parte das pessoas, mesmo as que o viram. Não deixa por isso de ser uma daquelas obras nostálgicas que, sem ser nada de espectacular, nos fazem passar um bom bocado na sala de cinema. Wim Wenders e Shepard nem parecem ter-se preocupado por aí além em fazer um filme perfeito, ou em fazer com que todas as cenas resultassem em cheio. E quem for também capaz de apreciar a imperfeição, não dará o tempo por perdido.
Classificação: 6/10
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Aquele Querido Mês de Agosto

quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Bem-vindo ao Turno da Noite

quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Por Favor Rebobine

Título Original: Be Kind Rewind
Realização: Michel Gondry
Ano: 2007
Não só com as palavras Charlie Kaufman se escreve o talento de Michel Gondry. Esta é apenas a primeira das boas novidades que este filme nos traz. Be Kind Rewind deixa a imaginação e a nostalgia à solta, recordando-nos os nossos sonhos de criança e a ingenuidade de quem insiste em não deixar o tempo passar. Pelo menos, não sem dar luta. É delirante, hilariante e a espaços dramático e comovedor. Com o acento tónico na criatividade, mostra como com pouco é possível fazer-se muito. Após o fantástico e inigualável Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, é de saudar o regresso à excelente forma de Michel Gondry. As comparações, no entanto, deixem-as por casa: trata-se de duas obras em quase tudo distintas.
A tecnologia atropela-nos a todos. O que hoje é bom, amanhã é obsoleto, o que hoje é verdade, amanhã pode muito bem ser mentira. De tantas mudanças e de tão veloz ritmo a que acontecem, por vezes só nos apetece pedir um desejo: que por uns instantes, pequenos que sejam, fique tudo na mesma. Com a entrada dos dvd´s no mercado, o VHS, rei e senhor durante os 80´s, viu os dias contados. No entanto, as memórias dos tempos de rebobinar cassetes antes de as entregar no videoclube, para evitar a multa, não desaparecem com tanta facilidade. É por essa razão que em Passaic, New Jersey, um pequeno clube de vídeo de bairro, o Be Kind Rewind, insiste em preservar a simplicidade. Antigo lar de um lendário cantor jazz, Fats Waller, cuja música e espírito ainda se sente no ar, dvd´por ali, nem sonhar em vê-los.
Mas nem tudo corre como previsto na Be Kind Rewind. O prédio onde se encontra necessita de obras urgentes e a câmara tem um projecto em andamento para se apropriar do prédio e destruir a loja, em detrimento de uma fachada mais moderna. Mr. Fletcher (Danny Glover), o dono, necessita de gerar lucros urgentemente para proceder às obras. Parte então numa viagem de reconhecimento das necessidades do mercado, analisando o porquê de não conseguir vendas significativas. Entretanto, Mike (Mos Def), o empregado, fica encarregue de gerir o negócio. Simples e inocente, procura reunir todos os esforços para não desiludir Mr. Fletcher, mas o azar parece destinado a tramá-lo.
Jerry (Jack Black) é o mecânico local, ligeiramente maluco e com propensão para os desastres. Paranóico com a rede de cabos de alta tensão na cidade, que pensa estar a controlar-lhe a mente, acaba por apanhar um choque eléctrico ao tentar desligá-la. Magnetizado, apaga inadvertidamente todas as cassetes de vídeo na Be Kind Rewind, para desespero de Mike. E quando Miss Falewicz (Mia Farrow), amiga de Mr. Fletcher e uma cliente habitual, pretende alugar o filme Ghostbusters, só lhes sobra uma solução: pegarem na câmara e filmarem-no eles mesmo. Com sorte, pensam, ela nem dá pela diferença.
É a partir deste momento que a verdadeira loucura se inicia. Todos os meios valem, qualquer pessoa é um actor. “Driving Miss Daisy,” “Rush Hour 2” ou o "Rei Leão". O importante é acabar as filmagens a tempo e horas. Mais espectacular ainda é que é visível que Jack Black e Mos Def estão realmente a divertir-se com tamanha insanidade. Com a ajuda de Alma (Melonie Diaz), uma empregada da lavandaria arrancada à força do trabalho para as filmagens, a reencenação de filmes clássicos parece não ter fim. Por estranho que pareça, os filmes são um sucesso e Mike e Jerry tornam-se as estrelas locais.
Em certos aspectos, Be Kind Rewind é uma fábula enternecedora, um reviver dos tempos do VHS, em que os filmes se tornaram acessíveis e serviam como um meio de união entre as pessoas, de imaginação e de escape. É uma luta contra o tempo, que as personagens sabem perdida, mais cedo ou mais tarde. O que não as faz desistir, mas aprender a aproveitar o que resta. Até o título, para os mais distraídos, chama para tempos idos: Be Kind Rewind.
O espírito é de diversão, a pura e simples diversão. É o que o cinema deve ser e o que importa para as pessoas. Acima de efeitos especiais, argumentos complicados ou orçamentos chorudos. Quem adora cinema, quem cresceu a ver cinema, vai de certo identificar-se com o filme e perceber do que estamos a falar. Michel Gondry, de quem sou fã mais que confesso, volta a criar um ambiente de magia narrativo e visual que, actualmente, é único. Outra coisa que o cinema deve ser, único.
Com um equilíbrio incrivelmente conseguido em termos de humor e nostalgia, é capaz de, num momento, nos fazer rir à gargalha de invenções tão geniais e amadoras como o raio laser dos Ghostbusters feito de serpentinas, e de seguida, nos mostrar como a vida desafia cruelmente os que se recusam a obedecer às leis do tempo. O ponto de vista inocente das personagens aquece-nos o coração e faz-nos sentir parte da comunidade, e conseguir ver a cena final sem nos deixarmos comover, por pouco que seja, é digno de um rochedo centenário e bem fixo à terra. Deixar passar este filme é um pecado que, acreditem em mim, não querem cometer. Pelo menos se adoram cinema.
Classificação: 10/10