quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Margot e o Casamento



Título Original: Margot at the Wedding
Realização: Noah Baumbach
Ano: 2007

Desconfio que Noah Baumbach teve uma adolescência complicada. Ou então apenas tem uma obsessão mórbida pela crueldade em que se podem transformar as relações familiares. Seja de que maneira for, quem sai a ganhar é o público. "The Squid and the Whale", filme com contornos autobiográficos, surpreendeu pela refinada mistura de humor e drama usada para contar a história de dois irmãos apanhadas no meio do atribulado processo de divórcio dos pais. Foi o primeiro grande sucesso de Baumbach, depois de alguns filmes menores com que iniciou a carreira. O resultado foi uma (justíssima) nomeação para o Óscar de melhor argumento original, aliado a uma grande expectativa relativamente à próxima obra deste jovem realizador. Mas "Margot at the Wedding" está longe dos pergaminhos do seu antecessor. O que não constitui necessariamente um factor assim tão negativo, dado que "The Squid and the Whale", ainda que realizado com um baixo orçamento, é de um nível difícil de igualar.

Margot (Nicole kidman), uma escritora de sucesso, e o seu filho Claude (Zane Pais) deixam Nova Iorque para assistir ao casamento de Pauline (Jennifer Jason Leigh), a irmã com quem Margot mantém uma relação complicada - chegando ao ponto de não se terem falado durante anos. A razão concreta do desentendimento entre as duas nunca nos é revelada, mas não é difícil de imaginar que se tratou do rebentar de pequenas tensões acumuladas, sentimentos recalcados e invejas bem entranhadas no fundo da alma. O futuro marido de Pauline é Malcolm (Jack Black), um homem sem emprego estabelecido e com manias de estrela, que a certa altura afirma que ainda não se apercebeu que não é a pessoa mais importante do mundo. Resumidamente, está uns pontos abaixo de Pauline, e Margot não consegue entender o porquê de esta se ter decidido a casar com um homem que lhe parece um idiota.

"Margot at the Wedding" é uma espécie de Rambo, mas aqui a violência é puramente emocional e afectiva. As metralhadoras são substituídas pelos diálogos densos e pesados, os pontapés à meia volta pelos momentos de desespero e humilhação. Chega a ser penoso ver o desenrolar da tragédia de pessoas que embora se amem, deixam transparecer o pior lado do ser humano e acabam por ferir-se umas às outras, em alguns casos irremediavelmente. O problema é que, faltando algum nível de credibilidade e uma história bem construída, tanto drama acaba por soar a pretensioso e falso. Nem mesmo as intervenções de cariz humorístico de Jack Black chegam para aliviar o ambiente pesado, tendo até muitas vezes o efeito contrário - sentimos verdadeiro embaraço pela forma infantil como se comporta.
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Conforme o tempo e os dias vão passando, a reunião familiar torna-se cada vez mais tensa. Margot revela que está a repensar a relação com o seu marido, Jim (John Turturro), isto enquanto se vai atirando para os braços de Dick (Ciaran Hinds), um antigo namorado. No meio desta situação, e sem saber ainda de nada, está o filho adolescente, Claude. E é entre Claude e a mãe que se desenvolve a relação mais interessante, e ao mesmo tempo cruel, de todo o filme. Claude adora Margot, mas por sua vez ela parece decidida em não perder uma oportunidade de descarregar a sua fúria no filho. Seja pelo sua inabilidade, pelo seu ar amorfo, pela sua inaptidão em agir por conta própria. E quanto mais Claude se rebaixa e procura agradar a Margot, mais é humilhado. Típico exemplo de situações capazes de deixar marcas psicológicas prolongadas e deitar por terra a auto-estima de qualquer um.

O restante não tem tanto interesse e acaba por cair no vazio. Falta ritmo e substância para alicerçar as sucessivas crises de Margot ou as dúvidas de Pauline. E a certa altura já está tudo tão visto e monótono que parece que os créditos finais nunca mais chegam. As personagens são demasiado egoístas e neuróticas, o que torna os seus medos e vulnerabilidades seres estranhos para o público. Queixam-se, agridem-se, fazem as pazes e voltam a queixar-se, mas já ninguém na plateia está muito concentrado no que se está a passar. Foi maior a vontade de Noah Baumbach em contar uma história capaz de nos deixar emotivamente devastados do que o sucesso na sua concretização.

A influência da cinematografia europeia, nomeadamente a francesa, está bem presente. Estão lá o ambiente claustrofóbico, as personagens de classe média-alta, o realismo, os silêncios, a câmara intimista e as cenas recheadas de supostos simbolismos. Não fosse falado em língua inglesa e quase ninguém daria pela diferença. A comparação pode não ser a mais justa, mas é inevitável: o despretensiosismo de "The Squid and the Whale", sua principal arma, deu lugar a um exercício a espaços pseudo-intelectual. "Margot at The Wedding" está longe de ser uma perda de tempo, mas espera-se de Baumbach mais e melhor.

Classificação: 4/10

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Arte de Roubar




Título Original: Arte de Roubar
Realização: Leonel Vieira
Ano: 2008

Não é novidade para ninguém se disser que Leonel Vieira está longe, mas muito longe mesmo, de ser um realizador dotado de um grande talento. Com obras como "A Bomba" ou "Mustang" no currículo, é natural que deixe qualquer um com os pêlos em pé só de ouvir falar na estreia de um novo filme seu. Por essa mesma razão, e como pessoa avisada que sou, foi com expectativas baixas que entrei no cinema para ver "Arte de Roubar".

E fico feliz por poder afirmar que, afinal, não é tão mau quanto inicialmente pensei. Não é um filme inovador, não vai trazer novos caminhos para o cinema em Portugal e nem tão pouco me parece ter qualidade para, como parece pretender Leonel Vieira ao escolher realizar o filme em língua inglesa, triunfar no estrangeiro. Mas, no fim de contas, trata-se de um bom entretenimento, sem intenções de ser mais do que isso. Um guilty pleasure que se assume com gosto.

Chico Silva(Ivo Canelas) e Jesus Fuentes (Enrique Arce) são dois ladrões sem sorte e desajeitados que vêem todos os seus planos "perfeitos" saírem furados, por uma razão ou outra. Desmotivados e sem rumo certo, o destino acaba por entregar-lhes de bandeja o golpe perfeito: roubar um quadro de Van Gogh, no valor de cinco milhões de euros, da mansão de uma velha condessa. Isto com a preciosa colaboração do mordomo da condessa (Nicolau Breyner), irritado por ter sido esquecido na recente herança esta elaborou. Mas nem tudo é tão simples como parece, e os dois acabam envolvidos acidentalmente num esquema maior.
Leonel Vieira confessou ser um fã devoto de Tarantino e dos irmãos Coen, e não escondeu a influência destes na sua obra. Mas nem precisava de o fazer, já que é bem visível para os espectadores familiarizados com a filmografia destes realizadores, ou até de Robert Rodriguez e Guy Ritchie, de onde surgiu a ideia para "Arte de Roubar". O espírito nonsense, a comédia negra, os diálogos rápidos e atrevidos, munições disparadas como se não houvesse amanhã, confusões e desentendimentos. Está lá tudo.

O modelo, verdade seja dita, está gasto, roto e tem buracos. E muitos foram os que anteriormente, e com bem melhores resultados, o interpretaram. Chamem-lhe homage, tributo, pastiche ou o que quiserem. Para mim não passa de uma aberrante falta de ideias inovadoras, que culminam numa cópia despropositada e vazia de métodos que até já cheiram a mofo. O guião, escrito por João Quadros com a colaboração de Roberto Santiago, é mesmo o elo mais fraco pelo qual acaba por ir cedendo o restante. Falta-lhe graça, tem falas medíocres, pouca energia e está cheio de momentos de disparate que roçam o embaraçoso. De que me lembre, só uma coisa tem em doses generosas: clichés. Se for apreciador...

Mas "Arte de Roubar" também tem os seus pontos fortes. A começar pelas interpretações, com Ivo Canelas e Henrique Arce a conseguirem, com pouca matéria-prima, construir personagens com substância e estilos próprios. Flora Martinez e Soraia Chaves, nem que aparecessem só para encher o olho com tanta beleza, já faziam muito. Mas são ainda duas actrizes de talento, e Soraia Chaves, embora num papel mais discreto - e com mais guarda-roupa - do que o habitual, fica extremamente bem na fotografia. O resto é ver o desfilar de personalidades bem conhecidas do nosso pequeno "ShowBiz" em papéis secundários, como Aldo Lima e Pedro tochas.

A realização de Leonel Vieira é de boa qualidade, filmando um Portugal de vastas planícies, praças de touros e empregadas de mesa desgrenhadas. Tudo em tonalidades de amarelo, que mais fazem lembrar uma tarde de verão tórrida no México. Consegue imprimir ritmo à história e ela flúi naturalmente. Para mais, não existe nenhum daqueles erros de fotografia e sonoplastia de palmatória, que tantas contribuem para transmitir uma imagem de falta de meios e de falsidade ao nosso cinema. Os planos são bem estudados, os locais bem escolhidos e não fosse um ou outro momento em que as cenas de acção poderiam ser mais arrojadas, estaria quase perfeito.

A banda sonora, da autoria de Paulo Furtado (Legendary Tigerman), foi uma óptima escolha. Quanto à questão do filme ser falado em inglês, que está a levantar algumas dúvidas e a suscitar críticas, não penso que seja relevante. Com certeza que, falado em português, teria outro sabor. Mas temos de fazer um esforço para compreender que o nosso mercado é pequeno e as aspirações de Leonel Vieira e companhia são legítimas. Num filme tipicamente comercial, que é mais um entre milhares, pode ser esse facto que lhe dê o lucro extra que as nossas produtoras bem precisam. Esperemos para ver. No geral, podemos considerar que "Arte de Roubar" é um filme mau, mas se for visto despreocupadamente e sem preconceitos, pode ser divertido. Vão ver que andam por aí coisas bem piores.


Classificação: 3/10

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Contas à Vida - 80´s Os Dias da Rádio



Título Original: Radio Days
Realização: Woody Allen
Ano: 1987

Corro o sério risco de, um dia destes, ficar sem adjectivos para descrever o talento de Woody Allen. Nada mais merecido. Com uma longa filmografia, não existe um único filme na lista que não seja, à sua maneira, memorável. Radio Days não foge à regra, até porque esta difere de todas as outras num pequeno pormenor - até hoje, ainda não tem excepção. Desta feita, Woody Allen presta um tributo aos tempos dourados da rádio, antes de a televisão se tornar o grande meio de comunicação de massas.

É um olhar puramente nostálgico aos seus tempos de juventude, quando famílias inteiras ainda se reuniam nas salas e partilhavam o prazer de ouvirem rádio juntas. O jazz dominava as emissões e perfurava o silêncio dos lares, as pessoas deixavam a imaginação correr e sonhavam com o glamour das estrelas, com o mundo fantástico e misterioso que existia por detrás do transmissor.

Claro está que, na maior parte das vezes, esse "mundo fantástico" não era tão fantástico assim. Joe (Seth Green), alter-ego de Woody Allen, é uma criança pertencente a uma família de classe média-baixa. Para desespero da família, que não aprova o tempo excessivo que passa a ouvir rádio, Joe não perde as aventuras do seu herói, o Masked Avenger, que visualiza como um homem alto, forte e robusto. Na realidade, a voz por detrás do Masked Avenger é a do atarracado e careca Wallace Shawn. Mas enquanto a televisão mostra, a rádio deixa para a imaginação. É essa a sua beleza.

O filme não apresenta a estrutura narrativa a que estamos habituados, isto é, uma história com princípio, meio e fim. O que nos mostra consiste em episódios caricatos e isolados, situações sem ligação especial entre si mas onde a rádio tem um papel fundamental, nem que seja como pano de fundo. A acção centra-se principalmente na família de Joe e nas voltas e reviravoltas na vida de Sally White (Mia Farrow), uma aspirante a estrela de rádio sem o mínimo de talento nem grande inteligência. Tudo isto em época de grande incerteza, fruto do eclodir da 2º Guerra Mundial.

Como Woody Allen (narrador) faz questão de frisar logo no princípio, são as memórias que guarda dessa época que transporta para este filme, coincidam ou não inteiramente com a verdade dos factos. Não é por isso de estranhar o apelo nostálgico que tem sempre presente, o que aliado à magia e beleza de certos planos de Nova Iorque, nos faz desejar recuar no tempo para fazer uma visita a esse mundo mais simples.

Radio Days tem tantas personagens e histórias paralelas que nem vale a pena tentar descrevê-las. Vale a pena, no entanto, dar uma espreitadela à qualidade dos actores envolvidos: Diane Keaton, Jeff Daniels e Danny Aiello, entre outros. Trata-se uma comédia leve e cativante, sem grandes preocupações para além do entretenimento, e onde as pessoas e os sentimentos têm lugar de destaque. O trabalho de realização é simplesmente grandioso, ainda mais tendo em conta o número de cenas que requerem produções elaboradas e minuciosas, com imensos cenários, actores e figurantes envolvidos.

O resto é o que Woody Allen nos tem habituado. Diálogos hilariantes e gargalhadas garantidas, isto sem esquecer o lado emocional que atravessa, meio escondido, todo o filme. O romantismo da cena final, no telhado de um prédio em Nova Iorque iluminado por um néon, é capaz de convencer o mais feroz dos críticos. E é mesmo esse o principal trunfo do filme, o final. De uma maneira brilhante, Woody Allen diz adeus a toda uma época em que cresceu, ouvindo as vozes do rádio desvaneceram-se ao longe. Até eu, que nasci bem mais tarde, senti saudades desses dias.

Classificação: 8/10

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Estrela Solitária



Título Original: Don't Come Knocking
Realização: Wim Wenders
Ano: 2006

Em 1984, Wim Wenders e Sam Shepard uniram esforços para uma aventura épica pelas paisagens desérticas e áridas da América profunda. "Paris, Texas", magnífico filme sobre um homem obrigado a lidar com as feridas profundas de um passado cheio de sonhos perdidos, saiu de Cannes com a palma de Ouro. Vinte e dois anos depois, a receita repete-se em "Don´t Come Knocking", com a dupla Wenders/Shepard a procurar o brilho de outros tempos. O resultado é em vários aspectos idêntico, repetindo-se temáticas e ambientes, mas o "refogado" já não é da mesma qualidade.

Howard Spence (Sam Shepard) é um outrora famoso actor de westerns, cuja popularidade se perdeu com o passar dos tempos e com o consumo abusivo de álcool, entre outros vícios. O típico "has been". Durante a gravação de um filme que, pela amostra, tem todas as condições para se tornar mais um falhanço numa carreira que se arrasta, Howard decide abandonar as gravações e partir em busca de algum sentido na sua vida. No seu estilo "cowboy", parte num cavalo com direcção incerta, deixando os produtores do filme à beira de um ataque de nervos.

Sem destino certo na fuga, Howard pensa ser a altura ideal para visitar a mãe (Eva Maria Sain) que já não vê à cerca de trinta anos, numa cidade perdida no Nevada. E é a mãe que lhe revela, inocentemente, que tem um filho já adulto de uma relação antiga, mantida durante a gravação de um filme em Montana. Incapaz de ignorar este facto, Howard parte em busca do filho e da antiga namorada.

Don't Come Knocking é um filme cuja acção de passa no presente, mas tudo evoca tempos antigos. Desde os cenários desérticos, passando pelo ritmo lento a que as personagens se movem ou ao livro de recortes que a mãe de Howard guarda com as notícias sobre o filho. Numa das melhores cenas do filme, Howard senta-se junto à janela, com o néon gasto de um casino a brilhar sobre ele. É deste material que o filme é feito, personagens gastas em busca de bocados do passado que parecem cada vez mais distante.

Entretanto, Howard encontra o filho Earl (Gabriel Mann), a antiga namorada Doreen (Jessica Lange) e ainda uma outra filha de que desconhecia a existência, Sky (Sarah Polley). Mas as coisas não estão fáceis para o seu lado. Com a excepção de Sky, que sonha em conhecer o pai e deambula pelo filme sempre com um ar inocente e conciliatório, nem Earl nem Doreen vêem com bons olhos a visita surpresa de Howard. O resto do filme contempla os esforços de Howard para se reconciliar com a família, e pouco a pouco vai conseguindo atingir os seus objectivos. Mas a verdade é que não existem esforços suficientes que façam o tempo andar para trás. Quando Howard, numa tentativa de encontrar alguma estabilidade na sua vida, pergunta a Doreen se quer voltar para ele, a gargalhada que obtém como resposta é esclarecedora.

O trabalho de fotografia é fantástico, retirando por vezes o foco às próprias personagens. A beleza visual confere-lhe um carácter romântico e nostálgico que, numa obra claramente imperfeita e irregular, é meio caminho andado para se apreciar o filme. O próprio facto de Sam Shepard ter passado tanto tempo a participar em filmes de qualidade duvidosa dá-lhe uma visão mais esclarecedora do que é sentir-se uma estrela fora do seu tempo. E essa experiência pode ter contribuído para a qualidade do guião que escreveu e da sua performance no ecrã.

Don´t Come knocking é capaz de nos entreter, mas incapaz de nos ligar realmente à história e às personagens. Será por certo rapidamente esquecido, se é que já não o foi pela maior parte das pessoas, mesmo as que o viram. Não deixa por isso de ser uma daquelas obras nostálgicas que, sem ser nada de espectacular, nos fazem passar um bom bocado na sala de cinema. Wim Wenders e Shepard nem parecem ter-se preocupado por aí além em fazer um filme perfeito, ou em fazer com que todas as cenas resultassem em cheio. E quem for também capaz de apreciar a imperfeição, não dará o tempo por perdido.

Classificação: 6/10

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Aquele Querido Mês de Agosto



Título Original: Aquele Querido Mês de Agosto
Realização: Miguel Gomes
Ano: 2007

Quem não tem cão caça com gato. Deve ter sido algo parecido que Miguel Gomes pensou quando, por dificuldades financeiras, se viu obrigado a adiar as filmagens deste filme - programado para ser uma ficção, com guião escrito e tudo - por tempo indeterminado. Pegou então numa equipa de produção e viajou para Arganil, com o objectivo de captar imagens que depois utilizaria para o filme propriamente dito. Mas as histórias que encontrou foram tão fantásticas que não podiam ficar de fora. Resultado: um filme onde o documentário se confunde com a ficção, e onde a própria equipa de filmagem e o processo de realização é mostrado por dentro. Pelo meio, já mal distinguimos se os actores estão a encarar uma personagem, se são eles próprios a falar. Uma autêntica manta de retalhos que, surpreendentemente, funciona muito bem. A necessidade aguça o engenho e, neste caso, o que poderia ser mais um filme sem notoriedade transformou-se, juntamente com Alice, no melhor filme português dos últimos tempos.

Aquele Querido Mês de Agosto é um filme tão tipicamente português como o bacalhau ou o azeite. É o retrato de uma das faces de Portugal, o Portugal do interior, profundo e esquecido. Em extinção. No mês de Agosto, os emigrantes regressam de França às suas terras de origem e multiplicam-se os bailaricos de verão, as festas e os namoros de ocasião. Foi isto que Miguel Gomes filmou e tão habilmente nos mostra. A primeira parte é quase exclusivamente constituída pela parte documental, com a introdução aos grupos de música ligeira (pimba é palavra odiada), às gentes e às histórias de Arganil, onde por vezes a verdade se mistura com o mito. Destaque para as aventuras de Paulo "Moleiro", o herói/bêbado local que todos os anos, por alturas do Carnaval, se atira da ponte, para delírio da população. Ou para o relato que uma habitante faz acerca da reacção assustada da população ao facto do namorado plantar tomates no jardim nu e de machado na mão.

Como documentário é formidável. Ouve as pessoas e transmite as suas histórias. Com planos longos e fixos permite-nos assimilar o ritmo a que os acontecimentos se desenrolam. Como tenho ouvido por aí, assemelha-se em certos aspectos a um episódio da liga dos últimos, onde com humor se procura o lado humano e caricato das pessoas. Mesmo para quem vive num contexto mais urbano e encara tudo isto com um olhar exterior, é impossível não sentir proximidade e ligação com a realidade destes habitantes, porque são também as nossas raízes.

A meio do documentário Miguel Gomes vai inserindo partes do processo de rodagem e da ficção, numa estrutura típica de filme dentro do filme. Aqui, no entanto, as coisas já não correm tão bem. Hélder (Fábio Oliveira) e Tânia (Sónia Bandeira) são dois primos que pertencem a uma banda de música ligeira e se partilham um amor secreto. Mas os obstáculos acumulam-se: o pai de Tânia não vê com bons olhos o facto de ter de dividir a filha com outro homem e os pais de Hélder pretendem levá-lo consigo para viverem juntos em Estrasburgo. Os actores (não profissionais), com excepção de Sónia Bandeira, não são nada de especial e a história vai-se arrastando sem grandes motivos de interesse ou carga dramática. Apenas por uma altura, numa sessão de música ao desafio onde as acusações são proferidas em forma de verso, parece que o rumo vai alterar, mas logo depois volta ao estilo "não anda nem desata".

Outro dos factores negativos é a duração. Cerca de duas horas e meio é um completo exagero e, embora os minutos passem relativamente bem, no fim torna-se cansativo e monótono. Um pouco mais de trabalho de tesouro na pós-produção só traria vantagens. Nada que estrague o trabalho anterior, mas é um erro que se repete por demasiadas vezes . Um dos principais objectivos da arte, no meu entender, deve ser o de não aborrecer. Passar as duas horas só se houver óptimas razões para isso. E aqui elas não existem.

Estivesse a ficção ao nível do documentário e tínhamos em mãos uma obra memorável. Não quer isto dizer que seja dispensável e que o filme estaria melhor limitando-se ao documentário. A ficção desempenha a importante tarefa de nos fazer aproximar das personagens e criar empatia com a ruralidade de Arganil, até chegarmos ao ponto de darmos por nós a apreciar a música de Dino Meira. Se podia haver ainda alguma distância entre grande parte do público e a realidade representada, rapidamente desaparece.

Última nota relativamente às criticas de paternalismo e altivez citadina que o filme, e Miguel Gomes em particular, têm recebido. Que, num filme tão verdadeiro e de certa forma inocente e bem-intencionado, se consiga descortinar uma ridicularização e exploração de vidas alheias, diz mais sobre quem assim pensa do que sobre o filme em si. Como um amigo meu costuma dizer, é a velha questão da expressão "mimi apita aqui": só vê maldade quem quer e já tem o pensamento nisso. A todas essas pessoas aconselha um segundo visionamento do filme e pode ser que, encarando-o noutra perspectiva, descubram que é mais o que temos em comum do que o que nos distancia de Arganil.


Classificação: 7/10

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Bem-vindo ao Turno da Noite




Título original: Cashback
Realização: Sean Ellis
Ano: 2007

Não fosse a existência das chamadas comédias românticas "light", e o mundo era um lugar bem mais triste. E se se trata de filmes com genuína piada e originalidade, então o meu dia está ganho, independentemente de tudo o resto. É esse o caso de Cashback, estreia na realização de longas-metragens do realizador inglês Sean Ellis, aproveitando e expandindo a ideia de uma curta realizado pelo mesmo em 2004. Actores, história e até pedaços do filme são idênticos. A diferença, em traços largos, é só uma: a curta teve a honra de ser nomeada para os óscares, a longa, sem aspirações para mais, teve a honra de me proporcionar umas quantas gargalhadas de fazer doer a barriga. Sem dúvidas dois grandes feitos.

O filme abre com Ben Willis (Sean Biggerstaff) e a sua ainda namorada, Suzy (Michelle Ryan, aquela jeitosa da série Bionic Woman), a terem uma discussão tão feia que acaba com um candeeiro atirado à cara de Ben. Suzy depressa arranja outro ombro onde se consolar, mas Ben mergulha na piscina da frustração e da depressão. De tanta auto-análise e comiseração, deixou de conseguir dormir e ganhou mais oito horas por dia. Com falta de dinheiro e tempo a mais nas mãos, fez as contas e decidiu o mais lógico: trabalhar durante a noite, no caso num supermercado.

É aí que Ben, para fazer passar as horas, desenvolve a habilidade de parar o tempo (contraditório, não é?), e assim apreciar a beleza de cada momento e de cada segundo. Se ele realmente pára o tempo ou apenas imagina que o faz, o filme não esclarece muito bem , mas também não interessa nada. Na maior parte do tempo somos guiados pela imaginação de Ben, que nos apresenta, entre outras coisas, às belezas infinitas do corpo feminino. Quando congela o tempo, não há mulher que mantenha as roupas no sítio. Vamos indo que volta a colocá-las no sítio antes de fazer o tempo correr novamente.

Não quer isto dizer que se trate de um filme pornográfico . Pelo contrário, é um acto puramente artístico (Ben é pintor) e despretensioso, que entra bem no espírito do filme e serve ainda para entreter a vista. Cashback é uma produção britânica, e esse toque extra de humor cínico e inteligente, inserido no ritmo lento e pastoso do filme, faz toda a diferença. A parte dramática não funciona assim tão bem, mas é o suficiente para nos manter interessados na história e apreciar o restante, aproximando-se, especialmente na parte final, de um "feel-good movie".

E é nas personagens que está grande parte do segredo. O melhor amigo de Ben é um mulherengo, mas com pouca sensibilidade no trato com as mulheres. No supermercado, os seus colegas são, no mínimo, estranhos. Desde um chefe convencido, uma dupla que não pára de pregar partidas e inventar problemas e um empregado novo fanático por Kung-fu, parece não faltar nada. Tantas misturas provocam momentos hilariantes como um jogo de futebol que acabou 26-0, ou a forma como o rapaz do Kung-fu faz as limpezas ao chão. Mas é em Sharon (Emilia Fox), empregada de caixa, que se concentram as atenções de Ben e que está a cura para esquecer Suzy. Os dois vão desenvolvendo uma relação cada vez mais forte e o resto, o resto nem é preciso dizer que já foi visto em muitas salas.

Sean Ellis não se poupou em alguns efeitos visuais de aplaudir, mas nem eram precisos. Os actores estão fantásticos, em especial Ben, perfeito no papel de uma rapaz introvertido e com a cabeça noutro mundo. Cashback é desequilibrado e isso em muito se deve ao facto de excertos da curta serem introduzidos no filme, provocando abanões no tom e estrutura. Nada de grave. Felizmente Sean Ellis não caiu na tentação de fazer um filme intelectual e, aos poucos, foi cedendo aos momentos mais leves e despreocupados. E ao vermos o mundo através de Ben, também nós apreciamos a beleza em redor. Não se trata de uma obra-prima, mas quem gosta de filmes divertidos e agradáveis tem aqui uma excelente surpresa.


Classificação: 7/10

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Por Favor Rebobine




Título Original: Be Kind Rewind
Realização: Michel Gondry
Ano: 2007


Não só com as palavras Charlie Kaufman se escreve o talento de Michel Gondry. Esta é apenas a primeira das boas novidades que este filme nos traz. Be Kind Rewind deixa a imaginação e a nostalgia à solta, recordando-nos os nossos sonhos de criança e a ingenuidade de quem insiste em não deixar o tempo passar. Pelo menos, não sem dar luta. É delirante, hilariante e a espaços dramático e comovedor. Com o acento tónico na criatividade, mostra como com pouco é possível fazer-se muito. Após o fantástico e inigualável Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, é de saudar o regresso à excelente forma de Michel Gondry. As comparações, no entanto, deixem-as por casa: trata-se de duas obras em quase tudo distintas.

A tecnologia atropela-nos a todos. O que hoje é bom, amanhã é obsoleto, o que hoje é verdade, amanhã pode muito bem ser mentira. De tantas mudanças e de tão veloz ritmo a que acontecem, por vezes só nos apetece pedir um desejo: que por uns instantes, pequenos que sejam, fique tudo na mesma. Com a entrada dos dvd´s no mercado, o VHS, rei e senhor durante os 80´s, viu os dias contados. No entanto, as memórias dos tempos de rebobinar cassetes antes de as entregar no videoclube, para evitar a multa, não desaparecem com tanta facilidade. É por essa razão que em Passaic, New Jersey, um pequeno clube de vídeo de bairro, o Be Kind Rewind, insiste em preservar a simplicidade. Antigo lar de um lendário cantor jazz, Fats Waller, cuja música e espírito ainda se sente no ar, dvd´por ali, nem sonhar em vê-los.

Mas nem tudo corre como previsto na Be Kind Rewind. O prédio onde se encontra necessita de obras urgentes e a câmara tem um projecto em andamento para se apropriar do prédio e destruir a loja, em detrimento de uma fachada mais moderna. Mr. Fletcher (Danny Glover), o dono, necessita de gerar lucros urgentemente para proceder às obras. Parte então numa viagem de reconhecimento das necessidades do mercado, analisando o porquê de não conseguir vendas significativas. Entretanto, Mike (Mos Def), o empregado, fica encarregue de gerir o negócio. Simples e inocente, procura reunir todos os esforços para não desiludir Mr. Fletcher, mas o azar parece destinado a tramá-lo.

Jerry (Jack Black) é o mecânico local, ligeiramente maluco e com propensão para os desastres. Paranóico com a rede de cabos de alta tensão na cidade, que pensa estar a controlar-lhe a mente, acaba por apanhar um choque eléctrico ao tentar desligá-la. Magnetizado, apaga inadvertidamente todas as cassetes de vídeo na Be Kind Rewind, para desespero de Mike. E quando Miss Falewicz (Mia Farrow), amiga de Mr. Fletcher e uma cliente habitual, pretende alugar o filme Ghostbusters, só lhes sobra uma solução: pegarem na câmara e filmarem-no eles mesmo. Com sorte, pensam, ela nem dá pela diferença.

É a partir deste momento que a verdadeira loucura se inicia. Todos os meios valem, qualquer pessoa é um actor. “Driving Miss Daisy,” “Rush Hour 2” ou o "Rei Leão". O importante é acabar as filmagens a tempo e horas. Mais espectacular ainda é que é visível que Jack Black e Mos Def estão realmente a divertir-se com tamanha insanidade. Com a ajuda de Alma (Melonie Diaz), uma empregada da lavandaria arrancada à força do trabalho para as filmagens, a reencenação de filmes clássicos parece não ter fim. Por estranho que pareça, os filmes são um sucesso e Mike e Jerry tornam-se as estrelas locais.

Em certos aspectos, Be Kind Rewind é uma fábula enternecedora, um reviver dos tempos do VHS, em que os filmes se tornaram acessíveis e serviam como um meio de união entre as pessoas, de imaginação e de escape. É uma luta contra o tempo, que as personagens sabem perdida, mais cedo ou mais tarde. O que não as faz desistir, mas aprender a aproveitar o que resta. Até o título, para os mais distraídos, chama para tempos idos: Be Kind Rewind.

O espírito é de diversão, a pura e simples diversão. É o que o cinema deve ser e o que importa para as pessoas. Acima de efeitos especiais, argumentos complicados ou orçamentos chorudos. Quem adora cinema, quem cresceu a ver cinema, vai de certo identificar-se com o filme e perceber do que estamos a falar. Michel Gondry, de quem sou fã mais que confesso, volta a criar um ambiente de magia narrativo e visual que, actualmente, é único. Outra coisa que o cinema deve ser, único.

Com um equilíbrio incrivelmente conseguido em termos de humor e nostalgia, é capaz de, num momento, nos fazer rir à gargalha de invenções tão geniais e amadoras como o raio laser dos Ghostbusters feito de serpentinas, e de seguida, nos mostrar como a vida desafia cruelmente os que se recusam a obedecer às leis do tempo. O ponto de vista inocente das personagens aquece-nos o coração e faz-nos sentir parte da comunidade, e conseguir ver a cena final sem nos deixarmos comover, por pouco que seja, é digno de um rochedo centenário e bem fixo à terra. Deixar passar este filme é um pecado que, acreditem em mim, não querem cometer. Pelo menos se adoram cinema.

Classificação: 10/10