terça-feira, 23 de setembro de 2008

Juno




Título Original: Juno
Realização: Jason Reitman
Ano: 2007

Juno, filme saído do circuito independente americano, foi a grande surpresa de 2007. Produzido com um baixo orçamento, atingiu lucros milionários e foi uma das presenças mais notadas na cerimónia dos Óscares, com nomeações para melhor actriz, melhor realizador, melhor argumentista e melhor filme. De certa forma, um percurso que em muito faz lembrar o conseguido por Little Miss Sunshine, em 2006. E até no estilo utilizado os dois filmes são semelhantes, tratando-se de comédias dramáticas ternurentas, que nos fazem aproximar das personagens e acabam por nos deixar o coração mole. São os denominados "feel-good movies". Mas se em Little Miss Sunshine o hype foi um pouco exagerado, em Juno justifica-se totalmente. É, em vários aspectos, um filme superior e um exemplo de como se pode ter sucesso a realizar seguindo prioritariamente o instinto e as paixões.

Quero com isto dizer que embora Juno não seja tecnicamente perfeito, tem um coração tão grande que nos faz esquecer o resto. Ou dizendo melhor, ainda bem que não é perfeito, porque são as pequenas imperfeições que lhe dão a piada que tem. Ver Juno assemelha-se, em certos aspectos, a assistir a uma prova de natação sincronizada nos jogos olímpicos: parece tudo tão simples, mas funciona tão bem. Estranha analogia, eu sei, mas é a que melhor me ocorre para definir o porquê de Juno ser tão bom. Embora não seja uma obra-prima nem contenha elementos de realização capazes de fazer corar Martin Scorcese, também ninguém se preocupou minimamente em que assim fosse. Não é esse, nem de perto nem de longe, o objectivo de Reitman e companhia. A prioridade é dada à simplicidade, ao humanismo e ao amor.

E funciona tão bem, tão bem que é impossível acabar de ver este filme e não sentir, nem que só por uns minutos, que o mundo é um lugar onde predomina a alegria. É também para isto que serve o cinema, para nos proporcionar momentos leves e descomplexados, que funcionem como um pequeno escape da realidade. Ellen Page protagoniza o papel de de Juno MacGuff, uma jovem rebelde e desenrascada de 16 anos que, num golpe de azar, engravida depois de ter relações sexuais com o seu melhor amigo, Paulie (Michael Cera). E para engravidar só foi preciso tentar uma vez, uma tarde de férias onde o tédio reinava. Apanhada de surpresa, Juno procura uma clínica para efectuar o aborto, mas à última da hora a sua consciência não a deixou continuar. Mesmo tendo em conta todas as dificuldades, Juno decide levar a gravidez até ao fim. Durante este processo Paulie, envergonhado e introvertido, não tem voto na matéria.

Juno, embora decida levar a gravidez até ao fim, considera-se muito nova para cuidar de um bebé. Com a ajuda da sua amiga Leah (Olivia Thirby), que lhe sugere a opção de dar o filho, procura no jornal anúncios para pretendentes a pais adoptivos (pelos vistos na América isto é possível). E encontra Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), um casal que vive numa típica casa "bonitinha" dos subúrbios e que deseja ardentemente ter um filho. Ou melhor, Vanessa deseja, porque Mark, cuja mentalidade parou pelos 80's, vai revelando algumas reservas.

Daí para a frente seguimos o evoluir da gravidez de Juno e as dificuldades e dúvidas inesperadas que, aproximando-se o dia do parto, vão surgindo na sua cabeça. A sua leveza e ingenuidade inicial ao lidar com toda esta situação vai dando subtilmente lugar a emoções sérias sobre as dificuldades que esta implica. E entre sequências genuinamente engraçadas, diálogos inteligentes e one-liners hilariantes e perfeitos para a personagem de Juno, somos obrigados a ceder e a comover-nos com a seriedade do momento que vive o dos que se aproximam, em especial o de dar o bebé aos pais adoptivos.

Dentro do ecrã, Ellen Page faz a festa, atira os foguetes e só não apanha as canas porque todos os outros actores assimilaram muito bem os seus papéis e cumpriram na perfeição. Jason Reitman também cumpre na realização, acertando em cheio no tom necessário para o filme e conseguindo demonstrar uma maturidade e segurança que só podem augurar coisas boas para o futuro. Mas apesar de tudo isto, o destaque tem de ir direitinho para a argumentista, Diablo Cody. Há uns anos trabalhava como stripper, hoje tem um Óscar em casa a enfeitar a estante. No seu primeiro guião, Diablo conseguiu um impressionante equilibrar entre subtileza, humor, ingenuidade e até pretensiosismo. Está tudo lá, o bom, o mau, e o mais ou menos. Com odesenvolvimento de narrativa clássico dos filmes de Hollywood, Diablo Cody mostra que é fácil ser-se genial sem precisar de se inventar nada.

Analisando bem, é um filme honesto sobre como encontrar o nosso caminho e o valor das relações humanas e do amor. Quem o acusou, entre outras coisas, de ser um panfleto anti-aborto simplesmente não viu Juno ou não sabe do que está a falar. A banda sonora é , no geral, óptima, mas atenção especial para o momento em que toca "Sea of Love", cover da autoria de Cat Power, numa altura crucial e em que as emoções estão mais ao flor a pele. Se existe perfeição, garanto, ela está nessa sequência. O veredicto para mim é simples: por mais que procurem, dificilmente encontram por aí melhor.



Classificação: 10/10

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Sabor do Amor




Título Original: My Blueberry Nights
Realização: Wong Kar Wai
Ano: 2007

De falta de pontaria Wong Kar Wai não se pode queixar. Logo no seu primeiro filme rodado na América, com um elenco inteiramente americano e inglês e falado em língua inglesa, espalhou-se totalmente ao comprido. Os antecedentes de Kar Wai, esses, não enganam: o homem sabe mesmo o que faz. Com um estilo visual único, é um especialista em observar a vida através de momentos, texturas, neons perdidos ou slow motions cobertos por músicas nostálgicas (quem não se lembra da banda sonora de Nat king Cole, em "In The mood for love"). O controlo da linguagem visual está-lhe no sangue, não deixa um plano por pensar, baralha as imagens e volta a dar, sabe mexer-nos os sentimentos. A principal força de Kar Wai, que o tornou num ícone do cinema, é essa mesmo, a de contar histórias por fragmentos dispersos, libertos, poéticos.

É por isso natural que as expectativas fossem altas, mas infelizmente não se vieram a confirmar. Por muito que custe aos fãs do realizador chinês (nos quais me incluo) admitir, "My Blueberry Nights" é um filme muito fraquinho. Se calhar muito fraquinho até é um elogio. As características dos seus filmes anteriores estão todas lá: uma história melancólica, personagens solitários em sofrimento, amores mal resolvidos, uma atmosfera nostálgica, olhares que substituem as falas, o sugerir em detrimento do mostrar. A diferença é que aqui nenhum destes aspectos funciona, e quando assim é só servem para irritar e piorar a situação.

O problema principal é que o filme não arranca, as personagens roçam a banalidade e o patamar de beleza e magia que Kar Wai ambicionava atingir ficou-se por palavras soltas e sem sentido, desprovidas de contexto. Dos actores é que ninguém se pode queixar, com interpretações fantásticas, na medida do possível, de Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman e Rachel Weisz. E a mudança da acção das ruas de Hong Kong para Nova Iorque e para o interior da América, com os seus bares, restaurantes e casinos, também resulta muito bem, o que só faz imaginar ainda mais a fantástica obra que Kar Wai, se inspirado, podia ter feito.

"My Blueberry Nights" é descrito como um "road movie", mas na verdade só o é a partir de metade do filme. Até esse ponto, acompanhamos a aproximação amorosa entre Jeremy (Jude Law), um inglês proprietário de um café em Nova Iorque, e Elizabeth (Norah Jones na sua estreia como actriz), uma rapariga ingénua com o coração destroçado após romper a relação com o namorado de longa data. Elizabeth, a necessitar de desabafar, deambula pelo café de Jeremy durante a noite, e os dois estabelecem uma intimidade muito especial. No meio de tudo isto, Elizabeth torna-se adoradora da tarte de mirtilo (Blueberry pie) de Jeremy, uma metáfora pouco conseguida para a solidão. A história esgota-se rápido e o tempo demora muito, muito a passar.

Até que Elizabeth decide fazer-se à estrada e mudar a sua vida, enfrentado-a de frente. Mete-se numa camioneta e parte para Memphis, onde trabalha num café de dia e num bar durante a noite. É aí que conhece Arnie (David Strathairn), um polícia alcoólico e solitário, incapaz de aceitar o fim do casamento com a sua ainda mulher, Sue Lynne (Rachel Weisz). Arnie frequenta os dois estabelecimentos onde Elizabeth trabalha, e desabafa com ela por diversas vezes. O que era suposto ser um trágico conto amorosa, capaz de tocar ao coração de uma pedra, acabou por se revelar uma história manca e frouxa, com vários aspectos mal explorados e situações pouco inverossímeis.

Adiante. Elizabeth abandona Memphis e segue viagem para Nevada, onde arranja trabalho a servir bebidas num casino. Leslie (Natalie Portman num estilo muito "cool") é uma jogadora de póquer que aprendeu tudo o que sabe com o pai. É atrevida, aventureira e gaba-se de saber ler as emoções nas pessoais e de não confiar em ninguém, incluindo ela própria. Ou seja, é tudo o que Elizabeth não é. Depois de alguns incidentes, as duas partem juntas para Las Vegas numa viagem de carro, onde cada uma procura perceber que emoções se escondem por detrás das capas exteriores. Ambas têm algo que necessitam de aprender com a outra, e é esse o princípio da sua amizade.

Mas esta história também não escapa ao vulgar, e fica de nova a sensação de que o que sobra em maneirismos falta em substância. Kar Wai não sabe filmar as suas personagens sem lhe dar o toque pessoal. Seja um desfoque, uma luz, um vidro. E se esse aspecto vai funcionando enquanto o filme se passa em Nova Iorque, perde completamente o interesse quando se desloca para as grandes planícies americanas. Junta-se-lhe a falta de consistência do argumento e temos uma segunda parte de filme bem aborrecida.

O melhor do filme ficou guardado para o cameo de Chan Marshall, mais conhecida entre nós como Cat Power. É um daqueles momentos que nos faz recordar a beleza que, se bem feito, pode ser o cinema. Embora sejam só 2 ou 3 minutos, compensa o investimento inteiro. Assim fossem os outros 87 minutos...

Classificação: 3/10

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O Segredo de um Cuscuz




Título original: La Graine et le Mulet
Realização: Abdel Kechiche
Ano: 2007

Abdel Keniche é um realizador de origem Tunisina, mas radicado em França desde muito novo. Não é por isso de estranhar que os seus filmes tenham como tema a experiência dos emigrantes árabes na França e a complexidade da sua adaptação ao território. Neste "O Segredo de um Cuscuz", o protagonista é Slimane Beiji (Habib Boufares), um homem na casa dos 60 anos que, depois de toda uma vida a trabalhar no cais a reparar barcos, é considerado dispensável pelos patrões. Os argumentos que lhe apresentam são simples: está velho, é lento e deixou de ser rentável. Encurralado por esta situação e a necessitar desesperadamente de um ganha pão, Slimane decide tentar concretizar um sonho, o de abrir um restaurante.

Mas a luta de Slimane por ultrapassar os obstáculos necessários para conseguir levar para a frente a ideia do restaurante está longe de ser o tema principal. Pelo contrário, funciona apenas como motor para apresentar as realidades sociais e pessoais da comunidade magrebina no geral, e desta família em particular. O ritmo do filme é lento, dolorosamente lento, as cenas correm por demasiado tempo, os diálogos e situações são do mais trivial que se imagine e os close-ups constantes. Tudo isto junto contribui para um realismo de certo modo apelador, mas também a um certo desequilíbrio dramático e a espaços alieanador.

Slimane é uma pessoa triste e conformada que vive num quarto do hotel cuja dona é a sua namorada, Latifa (Hatika Karaoui). Latifa tem uma filha, Rym (Hafsia Herzi), que considera Slimane seu pai e que lhe dá preciosas ajudas durante todo o filme. Souad (Bouraouia Marzouk) é a ex-mulher de Slimane e os filhos ainda acreditam numa reconciliação entre os dois. Quase nenhum dos filhos aceita a relação entre o pai, Slimane, e Latifa. Mas chega de falar das personagens e das relações entre elas, que, alias, são tantas que não saiamos daqui.

O mais importante não é a história nem as voltas (poucas) que ela dá, mas sim mostrar a luta diária destas pessoas, pegar num pedacinho das suas rotinas e expô-las no ecrã. É um filme duro e a exigir estômago, com uma banda sonora praticamente inexistente e uma banalidade que nos leva quase ao desespero. O milagre aqui é que, perante este estilo narrativo, primeiro estranha-se e depois entranha-se. Ou seja, no início só nos apetece sair porta fora e maldizer o dinheiro dado pelo bilhete, mas conforme o tempo vai passando vamo-nos habituando às personagens, aos seus tiques e às suas particularidades, identificamo-nos com elas e já não as queremos deixar. Mais importante, revemo-nos nas suas discussões insignificantes e no intimismo delas reconhecemos algumas das nossas próprias quezílias familiares.

É um filme naturalista cheio de potência dramática, que exige um pouco de paciência mas que acaba por compensar. Infelizmente, como já referi, a sua maior força é também a maior fraqueza. Estende-se por demasiado tempo (cerca de 2h e 30m) e não é um género que chame muitos adeptos. É um daqueles filmes que vemos uma vez na vida, mas nunca pensamos em revê-lo. Mas não deixa por isso de ser um retrato pungente da vida de uma população que não vive adaptado ao pais que os adoptou, que não consegue deixar a classe baixa, dos empregos instáveis e não-qualificados.

Por tudo o que referi, "O Segredo de um Cuscuz" é um filme muito conseguido, com grandes interpretações e uma grandeza que só não é maior por ter um final completamente desastroso. Não fosse esse facto, e estávamos perante uma obra quase perfeita, dentro do seu estilo. Assim sendo, não se consegue evitar uma pequena sensação de vazio ao abandonar a sala.

Classificação: 6/10

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Contas à Vida - 60's Dr. Estranho Amor




Título Original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
Realização: Stanley Kubrick
Ano: 1964

Década de 60, a guerra fria atinge o seu auge, o conflito nuclear é uma ameaça séria à sobrevivência e as pessoas vivem em permanente medo e ansiedade. Duas potências confrontam-se num conflito sem fim à vista. O que fazer perante esta situação dramática? Stanley Kubrick tinha a resposta: uma comédia, e provavelmente a mais deliciosa comédia alguma vez feita. É assim que se vêem os génios: pega-se numa situação de iminente catástrofe e põe-se toda a gente a rir. Não é preciso efeitos especiais (poucos havia na época), nem histórias demasiado complexas e nem sequer muitos actores (Peter Sellers desempenha o papel de três personagens). Parece fácil, mas vai-se a ver é até bastante complicado, e provavelmente só Stanley Kubrick para nos trazer esta obra-prima. Quando se sabe...


Mas Stanley Kubrick não faz milagres sozinho. Ter Peter Sellers como protagonista ajuda e não é pouco, e o resto do elenco também não lhe fica a dever nada. O que mais impressiona é que nada é deixado ao acaso, tudo bate certo. Todos os movimentos, falas, expressões roçam a perfeição. A forma como é construída a tensão, o ritmo e a insanidade crescente é isenta de falhas. Apesar de toda uma carreira de fazer inveja, a realizar filmes brilhantes, a reinventar géneros e a influenciar movimentos, Stanley Kubrick conseguiu aqui o seu trabalho mais completo.

Dr. Strangelove não é uma comédia vazia de significado, muito pelo contrário. Embora não deixe nunca de ser hilariante, é um retrato bem sério dos tempos que se viviam e dos riscos de incontáveis perdas humanas, caso a insensatez continuasse a reinar. Uma visão aterradora que Kubrick nos oferece, mais importante que mil teses juntas sobre os efeitos da guerra fria. O sarcasmo e a ironia são uma constante, e o absurdo atinge níveis impensáveis - a conversa telefónica entre o presidente americano e o líder da União Soviética é o melhor exemplo disso.

Jack Ripper (Sterling Hayden) é um general da força aérea que perdeu completamente a noção da realidade. Está convencido que os comunistas estão a planear danificar os "preciosos fluidos corporais" dos americanos e ordena um ataque nuclear aéreo aos soviéticos, sem autorização dos superiores. O presidente (Peter Sellers), por seu lado, organiza uma reunião de emergência no pentágono para solucionar a crise e trazer de volta o avião enviado para lançar a bomba. Mas para que o avião regresse é necessário que Ripper revele o código para o efeito, e este recusa-se a fazê-lo. Para aumentar o problema, o embaixador russo na América revela que se a União Soviética for atingida por uma bomba nuclear, fará activar automaticamente um mecanismo denominado "Doomsday Machine", que tem como objectivo matar toda a vida na Terra.

A solução não está fácil de se encontrar e o tempo começa a escassear. Já em desespero, o presidente manda chamar o Dr. Stangelove (Peter Sellers), um cientista excêntrico ex-nazi que apresenta as propostas mais bizarras que se possa imaginar, e também os momentos mais hilariantes que se possa imaginar. Para mais, tem uma mão biónica que parece ter vontade própria e que volta e meia o tenta estrangular ou faz a saudação nazi. E como se ainda não fosse suficiente, o embaixador russo está mais preocupado em fotografar os segredos contidos na sala do pentágono do que em salvar o mundo da destruição.

A cena final, onde o Major 'King Kong' (Slim Pickens) se monta em cima da bomba em histeria, como se de um cavalo se tratasse, é de antologia. 34 Anos depois, o mundo deu muitas voltas, mas é como se os anos não tivessem passado para este filme. Tão assustador e cómico como no dia de lançamento, é uma verdadeira lição. Garanto-vos, o cinema não fica melhor que isto.

Classificação: 10/10

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Homem do Tempo




Título Original: The Weather Man
Realização: Gore Verbinski
Ano: 2005

Gore Verbinski é um nome familiar para a maior parte das pessoas, muito devido à saga "Piratas das Caraíbas", de sua responsabilidade. Mas se esperam de The Weather Man as mesmas doses de acção e aventura, preparem-se para uma desilusão das grandes. Verbinski virou completamente a agulha e apresenta-nos a angustiante vida de um apresentador do boletim meteorológico com a vida pessoal feita num caco. Entre dois "piratas", surge esta obra pessimista e bem trabalhada sobre as dificuldades que a vida adulta coloca e como conseguir (ou não) ultrapassá-las.

David Spritz (Nicolas Cage) é, então, o meteorologista de serviço. David trabalha em Chicago, numa estação de televisão local, mas o sucesso que consegue faz com que sonhe em ir para Nova Iorque e dar o salto para um programa emitido a nível nacional. Na vida pessoal, contudo, as nuvens negras não saem do caminho. Divorciado, tenta inutilmente a reconciliação com a sua ex-mulher (Hope Davis). A filha, Shelly (Gemmenne de la Peña), tem problemas de peso e de falta de personalidade, optando constantemente por desistir quando as coisas se tornam complicadas. O filho, Mike (Nicholas Hoult), tem problemas com drogas e é assediado sexualmente por um dos conselheiros na reabilitação, para desconhecimento dos pais, mais preocupados em discutir e atirar responsabilidade para cima um do outro. Finalmente a relação de David com o pai, Robert (Michael Caine), também não é a mais saudável. Robert é um vencedor do prémio Pulitzer e David sente-se inferiorizado na sua presença, já que Robert não parece levar a profissão do filho como séria.

Todos estas questões, na visão de David, resolvem-se se conseguir o emprego em Nova Iorque. Aí pode começar do zero e emendar os erros do passado. Mas nada é assim tão fácil, e David até parece já o saber, não querendo somente acordar da ilusão. Aliás, um dos principais problemas de David é ser inseguro e não acreditar em si próprio. Apesar de ser bem remunerado, bom no que faz e de ter um trabalho pouco exigente e com largas vantagens, isso não é lhe é suficiente. Constantemente bombardeado na rua por fast-food que as pessoas que não o suportam atiram dos carros, perde-se em pensamentos sobre o porquê do ódio das pessoas, o porquê da família não ser feliz, o seu papel na sociedade, o valor do seu trabalho. O facto de nem sequer ser meteorologista, e de receber as previsões meteorológicas de outras pessoas, também o faz sentir inútil e mais culpado ainda pelo ordenado chorudo que recebe.

O filme cria um ambiente nocturno e trágico que não tende a desaparecer conforme os minutos vão passando. E esse é o seu principal trunfo. Um ou outro raio de sol espreita entre as previsões de céu fechado e nuvens negras, mas nada mais. O humor também aparece em doses generosas, mas é um humor cínico e seco, que arranca uns bons sorrisos irónicos. A certa altura pode parecer que o filme não vai chegar a lado nenhum, mas isso pouco importa. O importante mesmo é ver voltas que a vida dá (como diz Robert: "Easy doesn't enter into grown-up life."), o importante mesmo é que é sincero e nos faz reflectir.

Nicolas Cage está fantástico no papel de um homem sem rumo e em certa medida conformado com o destino. Já não o víamos assim desde "Inadaptado". Por cada passo no caminho certo que tente dar, saí ao contrário. Tenta ser um pai atencioso, mas os filhos continuam infelizes. Não consegue fazer com que o pai deixe de o olhar com decepção, e até no funeral em vida do pai, com uma doença terminal e a quem restam poucos meses, o discurso que preparou foi interrompido numa frase embaraçosa por uma falha na corrente eléctrica. É , sem dúvida, uma das personagens mais deprimentes alguma vez mostrada em película de 35mm.

E embora as situações possam por vezes cair para o lado do absurdo, é tudo feito de forma dolorosamente embaraçosa e realista, que às vezes faz lembrar as nossas próprias experiências infelizes. E são esses os momentos tocantes, que fazem de The Weather Man um filme arrojado e adulto. Que filmes assumidamente deprimentes não façam parte da lista de visionamentos obrigatórios até se percebe, mas se derem uma oportunidade, vão ver que arriscam-se a mudar de opinião.

Classificação: 7/10

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Tropa de Elite




Título Original: Tropa de Elite
Realização: José Padilha
Ano: 2007


Urso de Ouro no Festival de Berlim e sucesso garantido mesmo antes de estrear, Tropa de Elite chega-nos do Brasil com o rótulo de filme-sensação, na senda do fantástico "Cidade de Deus". E para aumentar a curiosidade, nem falta a polémica: alguns espectadores aplaudem fervorosamente, outros, chocados, consideram uma incitação à violência mais primária e saem a meio. Não se pode agradar a gregos e a troianos, e José Padilha nem parece ter-se preocupado muito com isso. Pelos lados de cá o tema ainda é visto como algo que não nos afecta, do qual guardamos certo distanciamento. Por essa razão, conseguimos com mais facilidade analisar o filme pelo filme, friamente e deixando de lado as nossas emoções e opiniões pessoais. Mas vamos pelo princípio.

Tropa de Elite passa-se nas favelas do Rio de Janeiro, as mesmas favelas (ou então muito parecidas) de "Cidade de Deus". Mas tem uma grande diferença: o foco da atenção não é dado às pessoas e traficantes que lá vivem, mas à polícia que tem a quase impossível missão de pôr ordem no assunto. E não se trata de uma polícia qualquer, mas de uma "tropa de elite" que os próprios polícias normais temem: os BOPE. E os BOPE não são para brincadeiras, quando entram nas favelas é para usar de todos os meios, independentemente de quais sejam, para atingir os seus fins. Traficante é traficante, guerra é guerra, e não há lugar para contemplações ou dúvidas. Para os BOPE só existem dois tipos de pessoas, os que estão com eles e os que não estão. No meio não está a virtude. Como afirma o Capitão Nascimento (Wagner Moura), que faz de narrador, se o BOPE não existisse, a cidade toda estava entregue aos traficantes.

José Padilha tem um passado ligado à área documental, e essa vertente não passa nada despercebida. O filme é um retrato duro, cru e realista sobre a vida, o trabalho e os problemas pessoais destes homens proibidos de ceder à fraqueza. A brutalidade usada pelos BOPE, que para apanhar os traficantes puxa dos mesmos métodos que este, não é aligeirada nem disfarçada. Ao mesmo tempo, leva-nos numa viagem ao centro das teias da burocracia e da corrupção existentes na polícia regular, teias essas que impedem quem quer trabalhar honestamente de o fazer. Sem meias-palavras nem floreados, Padilha mostra-nos o pior do sistema através do seu interior.

O que o filme tem de menos interessante acabam por ser as próprias personagens. O Capitão Nascimento, casado e esperando um filho, acha que é o momento certo para a retirada. Está cansado, e a mente começa a ceder. No entanto, não quer abandonar sem ter a certeza de encontrar alguém com qualidades para o substituir. E as qualidades são ser frio, profissional e impiedoso. Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro) são os candidatos para lhe suceder. Neto tem a mentalidade de uma máquina de matar, mas falta-lhe a inteligência. Matias tem a inteligência, mas falta-lhe a mentalidade. No geral são personagens sem densidade, que apenas estão lá para servir um papel e pouco mais, o que interessa á a acção.

Outro dos problemas é que o filme não tem uma mentalidade tão aberta quanto isso. Mostra a tomada de posições e o uso da violência dos BOPE como inevitável, e quem ataca esta posição é visto como um idealista mimado que nem sequer sabe o que é a vida nas ruas. Não me parece que seja uma decisão propositada do realizador ou que seja um espelho da sua opinião pessoal, mas uma vez contada a narrativa do lado da policia, o extremar de posições é difícil de evitar. Alias, essa é uma das principais características dos BOPE. Num país onde nada funciona, são obrigados a tornar-se autómatos para sobreviver, num processo onde o discernimento tem de ficar pelo caminho. Guerra é guerra.

Não se trata de uma continuação de "Cidade de Deus", mas tem algumas semelhanças. O tipo de edição, o ritmo, o ambiente de favela e mesmo alguns dos profissionais, entre eles o co-argumentista, são os mesmos. Mas Tropa de Elite é muito mais obscuro e fatalista. A música é pesada, a simbologia parece tirada do Rambo. Não há personagens simpáticos ou com um fundo bom. Entre polícia e bandido, a diferença não é assim tanta. Em certos pontos, o filme é portentoso e põe-nos o coração a bater mais forte, puxa-nos para a espiral de violência. Nós próprios, como espectadores, damos por nós a perder o discernimento. Não considero que glorifique a violência nem ela se torna no mais importante, é apenas a única solução. Quem for para a sala de cinema de mente aberta e deixar as ideias feitas do lado de fora, arrisca-se a uma agradável surpresa. Não está ao nível de "Cidade de Deus", mas é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. A não perder.

Classificação: 7/10

domingo, 17 de agosto de 2008

O Estado Mais Quente




Título Original: The Hottest State
Realização: Ethan Hawke
Ano: 2007


Baseado num romance escrito pelo próprio Ethan Hawke, The Hottest State é a segunda longa-metragem da sua carreira, depois do falhado "Chelsea Walls". Se o livro - segundo rezam as crónicas, porque não o li - era pouco recomendável, o filme não se pode ficar a rir. É mais um exemplo de que por vezes não vale a pena mexer no que está quieto, ou se quiserem, insistir no que nasce torto. Ethan Hawke não foi da mesma opinião e insistiu neste projecto pessoal. O resultado é um filme sem alma e sem substância, que a certo ponto torna-se mesmo aborrecido e repetitivo. É verdade que não é das piores coisas que anda pelas salas de cinema, mas não deixa de ser uma perda de tempo.

A história não tem muito que se lhe diga. William (Mark Webber) é um jovem aspirante a actor que abandonou o Texas com a mãe (Laura Linney) quando era criança. Fruto de um amor passageiro, fica sem qualquer contacto com o pai (Ethan Hawke), que permanece no Texas. Sara (Catalina Sandino Moreno) é uma latina que sonha em ser cantora. Contra a vontade da mãe (Sonia Braga), abandonou a sua cidade para estar sozinha e seguir o seu objectivo. Os dois vivem em Nova Iorque e apaixonam-se logo no início Como se trata de uma obra semi-biográfica, William é a personagem central. É pena, não porque Sara seja uma personagem mais interessante, mas porque pelo menos é bem mais gira. Voltando ao assunto, a primeira parte do filme assemelha-se a um drama adolescente. Quando tudo parece estar a correr às mil maravilhas entre os dois, inclusive com perspectivas de casamento, Sara decide que já não quer continuar a ver William. Nada que se possa condenar, até porque naquela altura já nem eu queria ver mais William. A partir daqui perde-se o tom de leveza e o filme afunda-se mais depressa que o Titanic.

O principal problema é que tudo soa a falso. O amor entre os dois não convence, as situações são forçadas, os diálogos vazios e insignificantes. Tudo fica ainda pior no momento da separação. Depois de uma viagem de sonho ao México, onde os dois passaram praticamente o tempo todo a fazer sexo e a declarar juras de amor, Sara diz a William que não pode estar com ele porque necessita de fazer a vida sozinha, ou algo que o valha. Simplesmente não faz sentido, ou se faz o filme não o mostra e devia. Quem está tão caída de amores como Sara precisa de uma razão mais forte para acabar a relação, que desse maior consistência ao drama. Assim sendo, se ela desse como motivo não gostar dos bifes de peru que William cozinha, a coisa não mudava muito.

É provável que algumas das relações entre jovens de 20 anos tenham este tipo de problemas de imaturidade, mas ao passá-los para o grande ecrã é preciso mais qualquer coisa. Não existe nada que nos faça aproximar das personagens, perceber os seus motivos, sofrer e rir com elas. Pelo contrário, são-nos mostradas como pretensiosas e falsas. Desta forma, não interessa absolutamente nada aos espectadores se eles acabam juntos, separados, divorciados ou solteiros. O que queremos é que acabe rápido, mas nem isso acontece. O filme estica-se por cerca de 1h50m completamente escusados, já que a história se contava facilmente em metade do tempo.

Depois da separação, William assume ainda mais o papel de protagonista. Angustiado, não aceita a decisão de Sara e tenta a todo o custo recuperá-la, na sua forma mimada e irritante. Sem surpresa, as tentativas desesperadas acabam sempre em frustração e sofrimento. Ainda vai ao Texas procurar o pai e os dois falam um pouco, mas não percebi bem a intenção que o levou a fazê-lo. Do que me lembro acho que queria que o pai lhe desse conselhos sobre como lidar com as mulheres, mas se calhar não era bem isso. O que acontece com o pai acontece também com todas as personagens secundárias: não se percebe o que estão lá a fazer, porque a verdade é que não estão a fazer nada.

Os planos no Texas e um ou outro no México são bons, a banda sonora é fantástica. Sónia Braga tem uma participação pequena, mas entra provavelmente na melhor cena do filme, um jantar dolorosamente estranho. Confesso que não fiquei nada convencido com a performance de Catalina Sandino Moreno, mas dou-lhe o benefício da dúvida porque o guião não ajudou em nada.
Actor de primeira, começo a suspeitar que Ethan Hawke não tem o dom para a realização. Nada de grave, não se pode ser bom a tudo.

Classificação: 2/10