quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Fome




Título original: Hunger
Realização: Steve McQueen
Ano: 2008


Cruel, violento, perturbador. Assim se descreve em poucas palavras a estreia de Steve McQueen, conceituado artista plástico britânico, na realização. "Hunger" conta a história das últimas semanas de vida de Bobby Sands (Michael Fassbender), membro do IRA que, em 1981, liderou uma greve de fome em protesto contra as políticas de Margaret Tatcher relativamente aos movimentos independentistas da Irlanda do Norte. Mistura de ficção com documentário, é um relato poderoso e incómodo sobre a vida na prisão de Maze, onde o ódio de décadas e o medo são os sentimentos reinantes entre guardas e prisioneiros. Ao contrário da abordagem de outros filmes sobre o mesmo tema, Steve McQueen não se preocupa em entrar em derivações políticas ou em análises profundas sobre a validade dos argumentos de ambos os lados da luta. Limita-se a mostrar, sem artifícios ou embelezamentos, a brutalidade de um conflito onde a razão há muito foi deixada de parte.


"Hunger" não segue uma estrutura narrativa clássica, é um filme artístico e experimental que se divide claramente em três actos ligados por uma mesma realidade. De estrutura rígida e minimalista, Steve McQueen reduz o diálogo ao essencial e é o fulgurante ambiente visual que, por si só, funciona como motor da história. É através deste método que começa por nos mostra as rotinas de um guarda-prisional (Stuart Graham), que incluem submergir os nós dos dedos em água para sarar as feridas de espancar prisioneiros, ou procurar bombas debaixo do carro para se assegurar que tal comportamento não o torna a próxima vítima do IRA. Entretanto, acompanhamos também dois prisioneiros que, como forma de luta pelo não reconhecimento do estatuto de prisioneiros políticos, recusam-se a manter a higiene pessoal e utilizam os próprios fluidos corporais para pintar as paredes da cela.

É só após esta visita ao dia-a-dia na prisão de Maze que encontramos a personagem principal, Bobby Sands, no momento em que é arrastado para uma banheira onde um guarda o esfrega com uma vassoura, acabando a sua resistência por provocar uma rixa com uma violenta intervenção policial. Aqui começa a segunda parte do filme, que se estende num fabuloso plano-sequência de aproximadamente 10 minutos, onde Sands dá a conhecer as suas intenções de levar a cabo a greve de fome ao padre Moran (Cunningham). Esta é a cena central e fulcral de "Hunger", cheia de energia e vivacidade, embora a câmara se mantenha intocável. Numa obra quase sem diálogos, é nesta conversa sobre a validade ética do acto desesperado de Sands que percebemos um pouco sobre as motivações dos intervenientes e as bases ideológicas do conflito.

A última parte centra-se na impressionante decadência física e psicológica de Bobby Sands. Com imagens chocantes, para ser simpático, assistimos ao lento tormento de um homem consciente de que, para se manter fiel à causa, só a morte lhe resta. O filme, despojado de qualquer tentativa de romancear os acontecimentos, não tenta tornar Sands um mártir ou um herói. No entanto, concorde-se ou não com o protesto, é impossível deixar de sentir respeito pela forma como, no meio de tamanha insanidade, Sands e muitos outros homens nunca deixaram de lutar e foram capazes de se sacrificar pelo que acreditavam ser justo. Nesta fase, os espectadores já estão completamente embrulhados na história, e apercebemo-nos do quão importante e pessoal a disputa se tornou para ambos os lados do conflito, indisponíveis para ceder um milímetro que seja.

"Hunger" é um filme obrigatório e um dos melhores de 2008. Requer estômago e em algumas partes paciência, mas no fim é certo que vem a recompensa. Original e destemido, depois de uma primeira obra deste calibre só se pode augurar um futuro promissor a Steve McQueen. Com uma realização de inegável qualidade, engendra imagens brilhantes e ao mesmo tempo assustadoras, que conseguem a espaços representar a violência e a dor de forma quase poética. McQueen faz com que cinema bom e original pareça uma coisa simples. Basta não ter medo de arriscar, saber à partida o que se quer mostrar e a forma como o fazer. Por cá, ficamos felizes se continuar assim.

Classificação: 8/10

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Estranho Caso de Benjamin Button




Título Original: The Curious Case of Benjamin Button
Realização: David Fincher
Ano: 2008


Líder nas nomeações para os Óscares e um dos grandes favoritos para conquistar a estatueta dourada nas principais categorias, "Benjamin Button" era um dos filmes mais esperados deste início de ano. Com um realizador de topo ao comando e um elenco de luxo ao seu dispor, nada fazia prever que as expectativas geradas em seu torno caíssem em saco roto, mas foi exactamente isso que aconteceu. Vazio de significado e previsível desde o primeiro minuto, tenta adquirir contornos de épico dramático, mas nunca consegue chegar perto da consistência necessária para o fazer. Quando se projecta um filme para atingir altos voos, corre-se o risco de este nem sequer sair do chão. Parece ter sido este um dos principais problemas de "Benjamin Button", já que a forma acaba por sobrepor-se ao conteúdo e no final, depois de tudo bem espremido, apercebemo-nos que a "laranja" tem muito pouco sumo para nos dar.

Benjamin Button (Brad Pitt) é, como ele próprio nos diz, uma criança que "nasceu sob circunstâncias curiosas". Invertendo o ciclo normal de vida, nasceu velho caquéctico e vai ficando mais jovem com a passagem do tempo. Confrontado com esta condição, tem de aprender a conviver com o envelhecimento das pessoas que ama, enquanto o seu corpo rejuvenesce a cada dia que passa. Desde muito cedo desenvolve uma relação íntima com Daisy (Elle Fanning e, mais tarde, a lindíssima Cate Blanchett), que por razões desconhecidas se apaixona desde criança por Button, mesmo tendo em conta que ele estaria na casa dos 70 anos nessa altura. Esse amor, claro está, vai-se desenvolver ao longo do filme e atinge o apogeu quando os dois, a caminhar em direcções opostas, se encontram finalmente na mesma faixa etária.

Só que a história falha em conseguir cativar o interesse do público. A simples premissa faz com que a relação entre Button e Daisy pareça sempre um pouco forçada, o que se torna ainda pior quando é evidente que o amor entre os dois é o principal motor da narrativa. Para além disso, Button é uma personagem excessivamente passiva. Se o mundo desabar à sua volta ele limita-se a contemplar o desastre. Aceita o seu destino com uma resignação digna do Dalai Lama, não tem um único momento de dúvida ou de revolta. É emocionalmente oco, sem objectivos ou interesses que o individualizem. Define-se unicamente pelo seu processo de rejuvenescimento, e isso é muito pouco para encher mais de duas horas e meia de filme. É muito difícil importarmo-nos com o seu destino trágico, se nem ao próprio Button isso parece preocupar.

Mas se em termos dramáticos as falhas são mais que muitas, visualmente não existe nada a apontar. David Fincher empregou o seu enorme talento na criação de imagens e cenários perfeitos, com recriações meticulosas das várias épocas que atravessa. É uma obra visualmente imponente, a piscar o olho à tentativa de realização de um épico grandioso, cuja própria duração é testemunha. O problema está quando procuramos o que está por detrás das imagens. Vindo de David Fincher, responsável por filmes tão negros e obscuros como "Seven" ou "Fight Club", não era de esperar uma viragem tão acentuada para o lado sentimental. Esperemos que "Benjamin Button" seja apenas uma excepção no caminho.

O argumento é da autoria de Eric Roth, baseado numa história original de F. Scott Fitzgerald. Para quem não conhece Eric Roth, foi o responsável pelo argumento de "Forrest Gump". E as semelhanças são indisfarçáveis, com a utilização do mesmo género de realismo mágico. Se Forrest Gump teve a sua piada, "Benjamin Button" encontra-se por diversas vezes no território da lamechice primária. Os dois filmes centram-se nas experiências de uma personagem central inadaptada e inocente, que por circunstâncias diversas percorre meio mundo e depara-se com aventuras inesperadas, isto enquanto aproveita para aprender meia dúzia de lições de vida inspiradoras e melancólicas. Em "Benjamin Button" a vida pode não ser como uma caixa de chocolates, mas garanto-vos que não anda muito longe (a tagline é "You never know what's comin' for you"). A fórmula é a mesma, mas aqui está velha e gasta.

E no final invade-nos a sensação de que andamos às voltas, às voltas, e não chegamos a lado nenhum. Sobram os pormenores de realização e o fantástico trabalho de caracterização de Brad Pitt e Cate Blanchett. É um filme que consegue não aborrecer muito, mas de um favorito aos Óscares espera-se que seja mais que isso. E de certo que pouca gente terá vontade de o rever no futuro.

Classificação: 4/10

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste




Título Original: Before the Devil Knows You're Dead
Realização: Sidney Lumet
Ano: 2007

May you be in heaven half an hour... Before the devil knows you're dead. É com esta simples frase, um velho provérbio irlandês, que o filme abre. E logo aí prepara-nos para o que se segue: um relato cru e adulto sobre relações familiares turbulentas, onde todos são capazes de tudo para atingir os seus objectivos. Aqui não existe um segundo pensado para as complacências, os amores indestrutíveis ou as amizades duradouras. Mas sobram enganos, mentiras, violência (física e psicológica) e discussões. Tudo tem um preço. É a espécie humano no seu lado mais negro. Aos 83 anos, Sidney Lumet demonstra-nos que velhos são os trapos e que a idade continua a ser, mesmo nos dias de hoje, um posto. Para quem pensava que por estas bandas já nada de novo podia surgir, desengane-se. Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano passado.

Andy (Philip Seymour Hoffman) e Hank (Ethan Hawke) são dois irmãos que, por razões diferentes, atravessam um período complicado na sua vida. No entanto, a solução para os seus problemas é simples e está identificada: necessitam de dinheiro. Andy, um poderoso executivo, passa os dias a consumir droga num apartamento de luxo em Manhattan. Quem não tem dinheiro não tem vícios, mas deixar os luxos e a droga de lado parece estar fora de questão. Hank, por seu lado, não consegue simplesmente pagar a pensão mensal da filha. Os seus recursos financeiros são muito inferiores aos de Andy, assim como parecem ser as suas ambições. Perante a pressão da ex-mulher para saldar as pensões em atraso e a dificuldade em admitir perante a filha que não é capaz de lhe pagar seja o que for, tem de arranjar rapidamente uma forma de surgir com o dinheiro. No meio está Gina (linda, linda, Marisa Tomei), mulher de Andy que mantém um caso com Hank.

É neste contexto que Andy, frio e calculista, surge com uma ideia imoral, mas aparentemente inofensiva: assaltar a joalharia dos pais. Com o seguro a cobrir por completo as perdas do assalto, todos ficariam a ganhar. Andy, a mente por detrás deste esquema, consegue convencer Hank, inseguro e frágil por natureza, a alinhar com o seu plano. Ambos conhecem bem como a joalharia funciona, as suas debilidades e a melhor hora para proceder ao assalto, para além de que não iriam utilizar armas. Infalível na teoria, um desastre na prática. Hank (o "bébé da família") volta a deixar que os medos o dominem e arranja um amigo para fazer o assalto por ele, que acaba num banho de sangue e na morte da mãe. Agora, o pai (Albert Finney ) promete não descansar até encontrar os responsáveis. A partir daqui Sidney Lumet vai deixando de lado o thriller e concentra-se no melodrama familiar, pesado e intenso como só os melhores sabem fazer.

O filme não tem uma estrutura narrativa linear. Os momentos antes e depois do assalto são apresentados sobre o ponto de vista das personagens envolvidas, com vários saltos e recuos na história. É verdade que esta escolha nada traz de especialmente inovador ou atractivo, mas permite-nos perceber melhor os sentimentos das personagens, os seus ódios recalcados e principalmente como cada uma delas reage perante as adversidades. O argumento, da autoria de Kelly Masterson, sabe por onde e para onde nos quer levar. Actores de qualidade superior como Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei e Albert Finney fazem o resto.

A partir da morte da mãe, os dois irmãos são obrigados a conviver com o remorso e a culpa, ao mesmo tempo que procuram desfazer-se das provas que os podem ligar de alguma maneira ao assalto. Conforme o mundo de ambos se desmorona, torna-se trágico assistir ao que são capazes para se protegeram, como o desespero os leva aos limites. Lumet cria cenários minimalstas e aparentemente imaculados, como o apartamento de Andy ou do seu dealer. O ambiente perfeito para representar ligações familiares onde tudo é fantástico à superfície e podre no interior, onde qualquer um se comporta como um chefe da máfia russa.

Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste agarra-nos desde o primeiro minuto e permanece no nosso pensamento muito depois de rolarem os créditos finais. Com um toque clássico e paciente, vive sobretudo das fantásticas performances do seu elenco. Não necessita de perseguições, explosões, gritarias ou pancada velha para manter um ritmo elevado e a tensão no limite. Um silêncio ou uma expressão pode ser tão violento como um berro. Sidney Lumet tem idade para o saber bem. Nós agradecemos que assim seja. Cinema deste calibre até dá gosto. Se ainda não viram, só posso dar um conselho: vão a correr.

Classificação: 8/10

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Contas à Vida - 90's O Cabo do Medo



Título Original: Cape Fear
Realização: Martin Scorcese
Ano: 1991

Cinema com a assinatura de Martin Scorcese é como um motor da Mercedes: pode ser melhor ou pior um bocadinho, mas anda sempre que se farta. Um ano depois de "Goodfellas", Scorcese traz-nos um remake de um livro já adaptado para cinema em 1962, com Gregory Peck no principal papel. "Cape Fear" está longe de ser a sua melhor obra, mas não deixa por isso de ser um interessante trabalho, capaz de nos agarrar desde o princípio e envolver-nos cada vez mais na história, à medida que a tensão e a intensidade dramática vão crescendo gradualmente. É um tratado sobre o medo e as relações humanas, que nos deixa também a nós, espectadores, colados ao ecrã assustados e a chamar pela mãe. E nem lhe falta a influência dos "slasher movies", com algumas memoráveis cenas de violência gratuita e sangue a espirrar de fazer arrepiar qualquer um.

Mas é na violência psicológica que se joga o maior trunfo deste filme. Max Cady (Robert De Niro) é um ex-condenado que, após 14 anos na prisão por ter violado uma rapariga, se vê finalmente em liberdade. E o seu objectivo agora é vingar-se do advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte), e fazê-lo sentir a mesma dor que experimentou na cadeia. A razão é muito simples: Bowden, durante o julgamento, não apresentou ao juiz um relatório que poderia ter minimizado a pena de Max Cady. Na altura Cady era analfabeto, e Bowden pensou que este nunca se iria perceber da situação. O problema é que durante a estadia na prisão, Cady dedicou-se afincadamente à arte da leitura. O que se segue é uma espécie de jogo do gato e do rato.

A premissa é simples, mas Scorcese soube dar-lhe os condimentos especiais. É para isso que serve o talento. Bowden é, efectivamente, culpado por ter facultado uma defesa defeituosa ao seu cliente, Max. E também está longe de ser o chefe de família perfeito, mantendo relações promíscuas com uma secretária do tribunal. Aqui, e ao contrário da versão de 1962, não existe uma luta clara entre o bem e o mal. No seu esforço para salvar a família, Bowden tem ainda de enfrentar os medos e distâncias que existem no relacionamento com a mulher e filha. E a certo ponto põe em causa os seus princípios morais, recorrendo a métodos obscuros quando se apercebe que a lei é incapaz de o ajudar. Bowden não é um herói, mas apenas um homem cujos erros passados lhe batem à porta para cobrar dívidas.

A primeira cena de "Cape Fear" mostra Max Cady a exercitar-se, de tronco nú, numa cela da prisão. Corpo musculado, repleto de tatuagens com referências bíblicas, não precisa de dizer uma palavra para sabermos que se trata de um fanático, um homem perigoso, violento e demente capaz de tudo para atingir os seus fins. De Niro é absolutamente brilhante a encarnar uma personagem que parece desenhada à medida das suas características. É a personificação do mal, muitas vezes sem outra razão que não o simples gosto pelo mal. Os seus principais alvos são a mulher de Bowden, Leigh (Jessica Lange), e a filha, Danielle (Juliet Lewis). De forma lenta e metódica aproxima-se das vítimas e, principalmente, tenta ganhar a confiança de Danielle, uma jovem cuja tentação pelo perigo conduz a actos insensatos. O facto de ter sido anteriormente acusado de violação a uma rapariga da idade de Danielle - 16 anos - aumenta ainda mais a expectativa.

A realização de Martin Scorcese é ágil e habilidosa, com constantes zooms, alterações de ângulos ou de cores. Em conjunto, estes elementos fornecem um ambiente perfeito para a necessária construção da tensão. No entanto, e longe de mim querer pôr em causa as capacidades de Scorcese com uma câmara na mão, dá sempre a ideia que falta algo que nos faça identificar aquele cunho das grandes obras. As personagens e a história acabam por não ter a profundidade dramática a que estamos habituados. Para a maior parte dos realizadores, "Cape Fear" seria o ponto mais alto da carreira. O problema é que Scorcese está longe ser a maior parte. Assim sendo, é impossível não nos sentirmos um pouco - mas só mesmo um pouco de nada - defraudados no final. Porque bem vistas as coisas, é um tratado sobre como realizar bons thrilhers. Só falta um pouco mais de alma.

Classificação: 7/10

sábado, 20 de dezembro de 2008

Paris



Título Original: Paris
Realização: Cédric Klapisch
Ano: 2008

Não há volta a dar: Paris é a cidade romântica, a cidade dos amantes, cheia de um certo charme e glamour especial. Todos os românticos que se prezam sonham com um dia se apaixonarem perdidamente sobre as luzes de natal da Torre Eiffel, embora a realidade nos mostre que é bem mais provável que esses momentos aconteçam junto a um bairro social na Amadora, na altura em que a electricidade vai abaixo. E para quem sabe bem o que são as amarguras da realidade e quanto elas custam, nada como visitar os sonhos através dos filmes. O grande ecrã, nos últimos tempos, tem-nos dado mais do que boas razões para saborearmos um pouco do que é a capital das luzes: "O Fabuloso Destino de Amélie", os dois filmes de Christophe Honoré, "Paris, Je t'aime", "2 Dias em Paris" ou o mais recente "Paris".

Todos eles, de uma forma mais ou menos declarada, incluem a cidade como parte da história. Neste "Paris", de Cédric Klapisch, transforma-se mesmo no ponto central que liga todas as personagens, o coração do filme. Com uma narrativa em mosaico, seguimos as aventuras e desventuras dramáticas de várias pessoas, unidas por esse factor tão simples, mas tão determinante. É como se o estilo de Robert Altman se tivesse fundido ao amor demonstrada por Woody Allen a Nova Iorque, em "Manhattan". Imaginem esse cenário e apreciem. Depois, voltem a pensar no mesmo, mas muitos furos abaixo em termos de qualidade, e têm "Paris". Uma homenagem ligeira, bem-humorada e calorosa, ideal para ultrapassar estes dias em que o frio aperta.

A personagem central é Pierre (Romain Duris, o menino bonito do cinema francês), um bailarino que descobre sofrer de uma grave doença no coração, que a qualquer momento o pode levar à morte. Confrontado com esta situação, e proibido pelos médicos de trabalhar, Pierre passa os dias em casa, a contemplar a vida dos transeuntes através da varanda da sala. A sua companhia principal companhia é a irmã, Elise (Juliette Binoche), que vive atormentada pelo facto de não ter grande sorte com o sexo oposto. Mas Pierre é apenas uma rampa de lançamento para todas as narrativas paralelas, porque como ele próprio experiência todos os dias, a vida lá fora não pára devido aos problemas de ninguém.

O problema é que nem todas as histórias têm o mesmo interesse. E as que nos colam ao ecrã acabam por saber a pouco, já que sofrem do problema de falta de tempo para se desenvolverem convenientemente - apesar de "Paris" durar aproximadamente 2h. Assim sendo, fica a amarga sensação de que falta sentimento ao filme, que com tantas personagens se torna desequilibrado e se perde em alguns momentos de aborrecimento, sem que ninguém perceba muito bem onde é que o realizador nos quer levar. Mas o filme tem ritmo, um elenco de luxo, algumas surpresas pelo caminho e um óptimo trabalho de fotografia, o que quase nos faz esquecer estas pequenos falhas.

E, acima de tudo, tem uma espectacular interpretação de Fabrice Luchini como Roland, um professor de história universitário apaixonado por uma das suas estudantes, Judith (Mélanie Verneuil). Roland merecia a completa atenção das duas horas de filme. Em tudo as suas acções e decisões, é ele que lança os foguetes, faz a festa e no final ainda apanha as canas. Atravessa uma crise de meia-idade e está mergulhado em angústias, neuroses e ideias disparatadas. Para mais vê no seu irmão, que tem a típica vida perfeita, em completo contraste com a sua personalidade, uma ameaça. Os principais momentos de humor são da sua responsabilidade, assim como os mais dramáticos - a forma como Judith interrompe a relação que mantinham é a cena mais cruel de "Paris". E a naturalidade e resignação com que Roland encara a rejeição e os contratempos, só isso é merecedor de uma visita a este filme.

Pena é, como já disse, que Cédric Klapisch não tenha aproveitado melhor as capacidades de Fabrice Luchini . O mesmo se aplica a Romain Duris, fantástico actor que fica muito aquém das suas capacidades, e cuja personagem nunca deixa de soar a cliché. A espaços, o argumento torna-se também demasiado simbólico e lamechas, um pouco ao estilo novelesco. Falta-lhe consistência, mas sobra-lhe vontade de mostrar alguma coisa. E no final, é impossível não sentir a melancolia no ar, enquanto Klapisch se vai despedindo com várias imagens de Paris e dos seus habitantes. Não é perfeito, longe disso, mas não deixa de ser uma interessante viagem ao mundo de pessoas normais, com problemas banais, que sofrem e amam conforme a vida o vai permitindo.


Classificação: 6/10

sábado, 13 de dezembro de 2008

Amália



Título Original: Amália, O Filme
Realização: Carlos Coelho da Silva
Ano: 2008

Segundo as informações veiculadas pela imprensa, "Amália" teve um orçamento a rondar os três milhões de euros, o mais caro de sempre na cinematografia nacional. Surgiu assim logo à partida como um projecto ambicioso, beneficiando também da vantagem de ir à boleia da imagem de um dos principais ícones do nosso país. Com uma forte tendência comercial e com o objectivo declarado de atingir os 200 mil espectadores, esperava-se que fosse uma boa oportunidade de conciliar o grande público com um cinema nosso, feito por nós e sobre a nossa gente. Esperava-se, mas não foi isso que aconteceu. Na verdade, é um filme sem ponta de sentido e incapaz de chegar aos calcanhares da grandeza da personagem que retrata. Daria vontade de rir, se não desse vontade de chorar o dinheiro do bilhete.

Quando se começa a construir um edifício pelo telhado, é garantido que mais tarde ou mais cedo irá ruir por completo. O mesmo acontece neste filme: com um guião de um amadorismo confrangedor, até patético, deita logo por terra qualquer tentativa de retirar algo de relativamente decente deste projecto. Diz aquela velha máxima do cinema que "é possível fazer um mau filme com um bom argumento, mas é impossível fazer um bom filme com um mau argumento". Se tivesse sido dada mais atenção a esta frase, se houvesse mais cuidado na elaboração de uma história com o mínimo exigível em termos de qualidade e densidade dramática, agradeceriamos imenso.

Não sei o que terá passado pela cabeça dos produtores para dar luz verde a um guião com tamanhas lacunas. Não sei, mas imagino. Parece-me que depois do sucesso de "O Crime do Padre Amaro", se criou a ilusão de que o público come tudo o que lhe é dado e no fim ainda se sai a rir. Basta pôr meia dúzia de actores conhecidos, um formato de telefilme que as pessoas já não estranham, fazer uma boa promoção do filme, se possível inserir um par de mamas e o retorno do investimento está garantido. Mas fazer bons filmes exige bem mais do que isso. E para se criar uma franja de público interessada e fiel, capaz de constituir um mercado para o nosso cinema, é preciso que este seja respeitado. No entanto, "Amália" é um autêntico atentado à inteligência do público. À primeira todos caem, à segunda cai quem quer e à terceira só quem é burro. A mim é que já não me voltam a apanhar numa destas.

"Amália" é um biopic sobre a vida excessivamente atribulada de uma das nossas principais artistas. Começa em Nova Iorque, em 1984, quando Amália, velha e isolada, se tenta suicidar atirando-se da janela do seu apartamento. Entretanto, vamos revendo os momentos mais marcantes da sua vida, começando pela infância, quando o seu espírito rebelde se começava já a demonstrar. Para além dos momentos de angústia em Nova Iorque, outra cena recorrente durante é o concerto de Amália no Coliseu no conturbado período pós-25 de Abril, onde enfrentou a fúria dos manifestantes pela sua alegada proximidade com o antigo regime.

Mas tudo é uma anedota pegada. Não existe uma linha narrativa que interesse tenha, uma personagem com quem possamos simpatizar. Os diálogos soam mais a falso do que o meu novo anel de ouro de 24 quilates, e os momentos embaraçosos repetem-se até à exaustão. A certa altura do filme a confusão é tal que já nem reconhecemos quem são as personagens nem como é que elas ali foram parar. E o pior é que Carlos Coelho da Silva e companhia não fizeram por menos: o filme tem a duração de mais de duas horas(!!!), vá-se lá perceber o porquê de sujeitar o público a tamanho teste à força de vontade.

E se o argumento é pior que mau, a realização também não se pode ficar a rir. A sonoplastia tem falhas de fazer arrancar os cabelos à força e alguns planos e sequências de imagem até provocam um arrepio gelado na espinha. Com tanto dinheiro envolvido, um pouco mais de talento era o mínimo que se podia exigir. Quanto aos actores, fizeram o que é possível: se o barco vai perdido no meio do Oceano, não são eles sozinhos que vão conseguir dar ao remo até à costa. Sandra Barata Belo tem uma participação positiva, assim como António Pedro Cerdeira ou Carla Chambel. Depois temos pormenores especialmente horripilantes de fazer cair o queixo de tanta gargalhada, como Ricardo Carriço com um sotaque brasileiro ridículo, ou uma pequena participação de João Didelet, com uma peruca da loja dos trezentos, a personificar Ary dos Santos. Já para nem falar da personagem de Salazar, sério candidato ao prémio de maior fanhoso do mundo. Ou então de um indivíduo de fato que assombra Amália e que supostamente simboliza a morte, mas que mais se assemelha ao homem da mercearia e que no final nem percebemos o que andou por lá a fazer.

Mas se fosse a listar todos os episódios inacreditáveis que "Amália" nos proporciona, não acabava este texto hoje. Salva-se o guarda-roupa, e digo isto só para mencionar algo de positivo no meio deste desastre. Para quem já viu não existe solução, mas quem não o fez, faça então o favor de poupar o dinheiro e o seu precioso tempo. "Amália" não dignifica Amália Rodrigues, nem o fado, nem o cinema e nem ninguém. Antes uma palhaçada qualquer com o Steven Seagal a aviar vinte inimigos de uma só vez.

Classificação: 1/10

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Contas à vida - 80's Para Além do Paraíso



Título Original: Stranger Than Paradise
Realização: Jim Jarmusch
Ano: 1984

O tempo muda tudo. É uma das maiores tragédias da vida. Na maior parte das vezes nem damos por a sua chegada, vem devagar, suavemente, mas quando nos apercebemos, quando finalmente parámos e olhamos para trás, já nada é igual. É como o Jerónimo de Sousa nos seus constantes ataques ao capitalismo: não perdoa. E se à coisa em que podemos confiar é que não pára nunca, nem para ninguém. Jim Jarmusch não é excepção. Em 1984, Stranger Than Paradise foi recebido em Cannes em apoteose e constitui-se como um marco do cinema independente - que viria a desenvolver-se exponencialmente nos anos seguintes, com nomes como Wes Anderson, Spike Lee ou Steven Soderbergh, entre outros. Tornou-se um clássico. Visto hoje em dia, num contexto diferente, o seu maior valor vem do facto de sabermos por antecipação que se tratou de um dos primeiros filmes a desbravar novos caminhos. As suas qualidades continuam intactas, é certo, mas não foram potenciadas pelos anos. É um producto de uma época, e torna-se difícil dar-lhe o devido valor quando não é visto na data certa.

Em Stranger Than Paradise a história não é importante. Longe disso. As personagens, os ambientes, até os silêncios, são o tema central. Os diálogos são escassos, os cortes raros, os movimentos da câmara quase inexistentes e a imagem a preto e branco. Todos as cenas são separadas através de um pequeno periodo em que o ecrã se mantêm preto, sem imagens. No total, existem quatro personagens. É um trabalho minimalista de Jarmusch, levando a peito a expressão popular "menos é mais".

E a verdade é que quase nada acontece durante todo o filme, que se encontra dividido em três segmentos. No primeiro, Eva (Eszter Balint) vem da Hungria para visitar o seu primo Willie (John Lurie), em nova Iorque. Willie não vê com bons olhos a chegada da sua prima, e faz de tudo para a fazer ela se sentir excluida dentro de sua casa. No entanto, conforme o tempo vai passando, Willie vai-se aproximando de Eva. Entretanto, Eva vai para Cleveland, onde fica a viver com a tia. Um ano depois, Willie e o seu amigo Eddie (Richard Edson) deslocam-se para Cleveland com o objectivo de a visitar. Na última parte, os três deslocam-se para a Florida para passar férias, onde os dois amigos deixam Eva sozinha e entregue a si própria, isto enquanto se concentram nas apostas de corridas de cães e de cavalos.

Em traços gerais é esta a história. Willie, personagem principal, passa o tempo deitado, ou sentado, ou a ver televisão enquanto come enlatados. Nenhum plano lhe parece suficientemente bom para o fazer levantar e sair à rua, nenhum sonho futuro o motiva. Eva e Eddie acompanham-no em tudo que propõe, principalmente com o objectivo de matar o tédio. É sobre esta melancolia que o filme se debruça, a inaptidão social destas pessoas, deslocadas e desprovidas de sentido do seu papel na sociedade, em se adaptarem e sentirem-se pertencentes a algo. O que as personagens fazem (ou, neste caso, não fazem) tem um sentido. E no fim, apesar de alguns momentos de reflexão e análise, descobrem que apenas andarem para chegar ao ponto de partida. Um Leopardo não pode mudar as manchas, mas não é por isso que desistem de o tentar fazer. O resultado é a frustração.

No entanto, a falta de desenvolvimento narrativo acaba por cansar, isto apesar da curta duração (1h30). Os ambientes inóspitos fornecem a noção da frieza e estagnação das personagens face ao mundo, mas são também demasiado fastidiosos para os espectadores. Escusado será dizer que não é um filme acessível a toda a gente. Requer estômago e força de vontade, mais ainda se nunca conseguirmos entrar no espírito que propõe. Jarmusch parece andar a levar-nos a lado nenhum, a mostrar-nos imagens isoladas de propósito. No final, podem enrolar tudo na mesma manta e encontrar algum sentido capaz de fazer apreciar a mensagem, seja ela qual for. Se não for o caso, é certo que vão dar o tempo por muito mal empregue. De qualquer forma, vale a pena arriscar e visitar uma das obras mais influentes dos anos 80.


Classificação: 5/10